As análises estratigráficas demonstram que, aproximadamente seis anos após o funeral de Tutmés II (durante a regência de Hatshepsut), uma tempestade torrencial extrema atingiu as montanhas tebanas. A cachoeira seca despertou com fúria torrencial, despejando milhares de litros de água barrenta e pedregulhos diretamente para dentro do corredor descendente da Tumba C4. A inundação submergiu a câmara funerária, provocou o desabamento parcial do teto estrelado e ameaçou destruir para sempre o corpo embalsamado do faraó e seus tesouros sagrados.
Diante da catástrofe profana, a administração real de Hatshepsut executou uma operação de engenharia de emergência cujas marcas físicas permanecem preservadas na rocha até hoje. Para contornar o corredor original obstruído pela enxurrada e pelos blocos caídos, os operários reais escavaram um segundo corredor paralelo de extração, revestido com gesso branco liso, cujo piso foi elevado exatamente a 1,4 metro acima do chão original da câmara funerária. Por meio dessa galeria suspensa de resgate, os sacerdotes entraram na câmara inundada, desmontaram sistematicamente o enxoval real — deixando para trás apenas as lascas dos vasos de alabastro que haviam se quebrado durante a enchente ou no transporte — e retiraram a múmia de Tutmés II em segurança.
A tabela abaixo consolida todas as medições físicas, coordenadas cronológicas, evidências epigráficas e dados institucionais verificados pela missão anglo-egípcia em Luxor:
| Parâmetro Técnico / Histórico |
Especificação Científica e Arqueológica Confirmada |
Significado para a Egiptologia Mundial |
| Designação Oficial da Tumba |
Tumba C4 (Wadi C-4) |
Última tumba real desaparecida de toda a 18ª Dinastia do Egito |
| Localização Geográfica |
Desfiladeiro Wadi C, nos Uádis Ocidentais (Western Wadis), Luxor (antiga Tebas), Egito |
Situada a ~2,4 km (1,5 milha) a oeste do Vale dos Reis |
| Soberano Identificado |
Faraó Tutmés II (Aakheperenre Djehutymes), 4º rei da 18ª Dinastia |
Filho de Tutmés I; marido de Hatshepsut; pai de Tutmés III; ancestral de Tutancâmon |
| Período de Reinado Estimado |
c. 1493 – 1479 a.C. (Império Novo, século XV a.C.) |
Transição crucial que precedeu o reinado feminino de Hatshepsut |
| Marco Histórico da Descoberta |
Primeira tumba real faraônica descoberta em 103 anos (desde Tutancâmon KV62 em 04/11/1922) |
Encerra mais de um século sem localização de novos sepulcros originais de faraós |
| Missão Científica Responsável |
New Kingdom Research Foundation (NKRF) (Universidade de Cambridge) & Ministério de Antiguidades do Egito |
Direção de campo do Dr. Piers Litherland e Mohamed Abdel-Badi |
| Arquitetura Subterrânea |
Planta real em eixo dobrado à esquerda, com escadaria, corredor descendente e poço ritual |
Câmara funerária medindo ~5,3 m × 5,2 m × 3,4 m de altura |
| Corredor Secundário de Resgate |
Galeria revestida em gesso branco escavada a 1,4 metro acima do piso da câmara |
Construída pelos sacerdotes antigos para evacuar a tumba após inundação (~6 anos após o enterro) |
| Provas Materiais e Epigráficas |
1. Teto azul com estrelas amarelas; 2. Paredes com o Livro do Amduat; 3. Vasos de alabastro inscritos |
Cartuchos do "Rei Osíris Tutmés II" e da "Grande Esposa Real Hatshepsut" |
| O Alvo da "Segunda Tumba" |
Montanha artificial de 23 metros de altura de lascas de calcário, cinzas e reboco nas proximidades |
Provável local onde Hatshepsut reenterrou Tutmés II e seu tesouro intacto |
A descoberta de que o sepulcro original de Tutmés II foi esvaziado pelos próprios sacerdotes da 18ª Dinastia apenas seis anos após sua morte reabriu um dos debates forenses e antropológicos mais acirrados da egiptologia moderna: onde estão hoje o verdadeiro corpo e o tesouro funerário de Tutmés II? A resposta tradicional dos livros didáticos apontava para o célebre Esconderijo Real de Deir el-Bahari (Tumba DB320 / TT320), descoberto em 1881, onde sacerdotes da 21ª Dinastia ocultaram dezenas de múmias reais — incluindo Tutmés III, Seti I e Ramsés II — para protegê-las de saqueadores.
No esconderijo DB320, os arqueólogos do século XIX encontraram um ataúde reutilizado contendo uma múmia enfaixada que trazia um rótulo de linho inscrito na 21ª Dinastia identificando-a como Tutmés II (catalogada hoje sob o código CG 61066 no Museu Nacional da Civilização Egípcia, no Cairo). Quando o anatomista Grafton Elliot Smith desembrulhou essa múmia em 1886 e a examinou posteriormente, os exames anatômicos e radiográficos revelaram o corpo de um homem com idade estimada em cerca de 30 a 40 anos, com a pele marcada por lesões cutâneas severas e sinais de doença crônica.
Entretanto, nos últimos anos, diversos egiptólogos e bioarqueólogos — incluindo a equipe do próprio Dr. Piers Litherland — passaram a questionar seriamente se a múmia CG 61066 de Deir el-Bahari é de fato Tutmés II. Evidências históricas e cronológicas sugerem que Tutmés II subiu ao trono ainda adolescente e faleceu muito jovem, antes de completar 30 anos, além de os sacerdotes da 21ª Dinastia terem comprovadamente trocado ou confundido rótulos de várias múmias ao reembalá-las às pressas séculos depois. Assim como o sequenciamento de DNA antigo nos moldes de gesso de Pompeia derrubou mitos de dois séculos, a comprovação de que a Tumba C4 já estava selada sob metros de lama petrificada desde a 18ª Dinastia levanta uma questão explosiva: se os sacerdotes da 21ª Dinastia jamais puderam entrar na Tumba C4 inundada, de onde eles teriam tirado a múmia de DB320 — ou será que o verdadeiro Tutmés II e todo o seu tesouro ainda repousam intactos na segunda tumba construída por Hatshepsut?
Essa não é uma mera especulação teórica. A poucos metros de distância no próprio complexo dos Uádis Ocidentais, a equipe do Dr. Litherland identificou uma formação topográfica colossal que havia sido confundida por décadas com um desmoronamento natural: uma pilha artificial de 23 metros de altura construída inteiramente pela mão humana, composta por milhares de toneladas de lascas de calcário, cinzas, lama e fragmentos de gesso empilhados em camadas deliberadas sobre a base do penhasco.
Segundo Litherland, na engenharia funerária da 18ª Dinastia, monumentais coberturas artificiais de entulho e lascas de rocha eram depositadas exatamente para ocultar e blindar a entrada de uma tumba real contra futuras inundações e olhares humanos. Como essa montanha artificial de 23 metros exige a remoção manual cuidadosa de cima para baixo para evitar deslizamentos, a missão anglo-egípcia já iniciou a operação de desmonte camada por camada. Se a hipótese se confirmar nas próximas temporadas de escavação, a humanidade poderá testemunhar a abertura de uma segunda tumba real de Tutmés II potencialmente intacta, guardando o mobiliário funerário e os tesouros que Hatshepsut salvou das águas há 3.500 anos.
Independentemente do que aguarda sob a montanha artificial de 23 metros, a localização da Tumba C4 nos Uádis Ocidentais já provocou um terremoto científico na compreensão de como surgiram as necrópoles reais do Império Novo. Conforme declarou o Ministro do Turismo e Antiguidades do Egito, Sherif Fathy, e detalhou o Dr. Piers Litherland em entrevistas à imprensa científica internacional e à Universidade de Cambridge, o achado obriga os historiadores a reescreverem a origem do próprio Vale dos Reis.
- Os Uádis Ocidentais eram a verdadeira Necrópole Real dos primeiros Tutmóssidas: Antes desta descoberta, acreditava-se que Tutmés I (pai de Tutmés II e de Hatshepsut) havia sido o primeiro faraó a ser sepultado no Vale dos Reis (nas tumbas KV20 ou KV38). O achado da tumba monumental de Tutmés II no Wadi C — cercada pela primeira tumba de Hatshepsut — comprova que a família real do início da 18ª Dinastia estabeleceu sua necrópole principal nos Uádis Ocidentais, e que muito provavelmente o sepulcro original de Tutmés I também foi escavado nessa mesma região antes de seu corpo ser transferido posteriormente por Tutmés III para o Vale dos Reis.
- A razão real para a mudança definitiva para o Vale dos Reis: O desastre hidrológico sofrido pela Tumba C4 explica por que Hatshepsut, ao assumir o trono como faraó pleno, abandonou os Uádis Ocidentais e ordenou a escavação da tumba KV20 no Vale dos Reis. Ao testemunhar a destruição da câmara funerária de seu marido pela cachoeira oculta seis anos após o sepultamento, Hatshepsut percebeu a vulnerabilidade geológica daqueles desfiladeiros e transferiu a necrópole real para a bacia mais protegida do Vale dos Reis.
- A lealdade funerária de Hatshepsut a Tutmés II: Durante décadas, a historiografia antiga retratou Hatshepsut como uma usurpadora implacável que desprezava a memória do marido. A presença dos vasos de alabastro na Tumba C4 gravados conjuntamente com os nomes do "Rei Osíris Tutmés II" e de "Sua Grande Esposa Real Hatshepsut", somada à gigantesca operação de engenharia que ela comandou para resgatar o corpo do marido da tumba inundada, prova que Hatshepsut honrou rigorosamente seus deveres sagrados para garantir a imortalidade de Tutmés II.
Tal como na monumental escavação do palácio subterrâneo de madeira do Rei Kaolie de Chu na Tumba de Wuwangdun, na China, a identificação da Tumba C4 em Luxor demonstra que o solo das grandes civilizações antigas ainda guarda capítulos inteiros capazes de derrubar dogmas centenários. Mais de um século após a lanterna de Howard Carter iluminar o ouro de Tutancâmon, o deserto de Tebas volta a sussurrar o nome de um faraó perdido — e promete revelar, sob 23 metros de pedra calcária, o desfecho do maior resgate funerário da Antiguidade.
- Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito / Conselho Supremo de Antiguidades (SCA): Comunicado Oficial de Imprensa do Ministro Sherif Fathy e do Secretário-Geral Dr. Mohamed Ismail Khaled sobre a descoberta da Tumba do Rei Tutmés II (Tumba C4) nos Uádis Ocidentais de Luxor (mota.gov.eg).
- University of Cambridge — McDonald Institute for Archaeological Research & New Kingdom Research Foundation (NKRF): Relatórios de campo da missão anglo-egípcia nos Uádis Ocidentais liderada pelo Dr. Piers Litherland e Mohamed Abdel-Badi (cam.ac.uk).
- Antiquity / Egyptian Archaeology (Egypt Exploration Society): Documentação arquitetônica e epigráfica das necrópoles reais do início da 18ª Dinastia em Tebas Ocidental (antiquity.ac.uk).