Drones com Laser Revelam Duas Metrópoles Perdidas da Rota da Seda a 2.200 Metros de Altitude no Uzbequistão

Recriação ilustrativa documental baseada nos dados reais da expedição: arqueólogos operam drone hexacóptero com sensor LiDAR sobre as muralhas de terra batida e trincheiras siderúrgicas de Tugunbulak, a 2.200 metros de altitude na cordilheira de Malguzar, Uzbequistão. (Crédito: Ilustração Editorial de Alta Fidelidade / Mundo Incrível)
Uma operação pioneira de sensoriamento remoto a laser conduzida no coração das montanhas da Ásia Central revelou duas metrópoles medievais fortificadas que permaneceram invisíveis para a ciência moderna por quase um milênio: Tugunbulak e Tashbulak, erguidas entre 2.000 e 2.200 metros acima do nível do mar na cordilheira de Malguzar, no sudeste do Uzbequistão. Publicada como capa de destaque na revista científica Nature sob a liderança do arqueólogo Michael D. Frachetti, da Washington University in St. Louis (WashU), e de Farhod Maksudov, diretor do Centro Nacional de Arqueologia da Academia de Ciências do Uzbequistão, a descoberta expôs um complexo urbano colossal de 120 hectares em Tugunbulak — área equivalente a cerca de 300 acres com mais de 300 estruturas monumentais — ao lado de sua cidade-irmã de 12 hectares em Tashbulak. O mapeamento por drones equipados com tecnologia LiDAR (Light Detection and Ranging) e as escavações subsequentes comprovaram que esses picos gelados, situados na mesma faixa de altitude de Machu Picchu nos Andes peruanos, abrigavam uma vibrante civilização industrial que produzia ferro e aço em larga escala para abastecer os exércitos e caravanas da Rota da Seda entre os séculos VI e XI d.C.
Durante mais de um século de historiografia orientalista e soviética, o consenso acadêmico sustentou que a rede comercial da Rota da Seda serpenteava exclusivamente pelos oásis férteis das terras baixas — conectando metrópoles agrícolas como Samarcanda, Bukhara, Tashkent e Kashgar —, tratando as cordilheiras alpinas da Ásia Central como muralhas geográficas hostis habitadas apenas por pequenos grupos nômades dispersos. A revelação física de Tugunbulak destrói essa premissa ao demonstrar que populações pastoris e dinastias turco-islâmicas medievais construíram cidadelas muradas, praças públicas, terraços habitacionais e complexos siderúrgicos exatamente onde os recursos estratégicos estavam concentrados: junto às jazidas de minério de ferro de alta pureza e às florestas alpinas de zimbro da cordilheira de Malguzar. Hoje, menos de 3% da população mundial habita regiões situadas acima de 2.000 metros de altitude, o que torna a existência de uma potência urbana e industrial nessa cota topográfica durante a Idade Média um dos achados arqueológicos mais extraordinários do século XXI.
Mais do que redimensionar o mapa político da Eurásia medieval, as escavações nas fortalezas de Tugunbulak ofereceram a primeira prova material contundente para solucionar um enigma geográfico que intrigava orientalistas desde o século XIX: a localização exata de Marsmanda, a lendária "Cidade do Ferro" da província histórica de Ustrushana, celebrada nos manuscritos árabes do século X pelo geógrafo Ibn Hawqal. Ao cruzar nuvens de pontos tridimensionais de precisão centimétrica com trincheiras arqueológicas que expuseram fornalhas abobadadas e toneladas de escória metalúrgica, a equipe internacional reconstruiu a ascensão e o colapso ecológico de um império das alturas que moldou a economia militar da Rota da Seda.
O Enigma das Altitudes Extremas e o Mistério de Marsmanda nos Manuscritos do Século X
Para compreender a magnitude do achado nas montanhas de Malguzar — situadas no distrito de Zaamin, a cerca de 65 quilômetros a sudeste de Jizzakh e a nordeste de Samarcanda —, é necessário examinar o abismo que separava os relatos textuais medievais das evidências arqueológicas de campo. Nas crônicas geográficas do mundo islâmico clássico do século X, a região montanhosa situada entre o rio Syr Darya (o antigo Jaxartes) e o vale do rio Zeravshan era conhecida como o principado de Ustrushana, famoso por suas minas de ferro, prata e ouro e pela ferocidade de seus guerreiros montanheses. O célebre geógrafo e cronista árabe Ibn Hawqal, em seu tratado Kitab Surat al-Ard (O Livro da Configuração da Terra, concluído por volta de 977 d.C.), descreveu com fascínio uma localidade singular nas terras altas de Ustrushana chamada Marsmanda.
Segundo o testemunho preservado por Ibn Hawqal e por geógrafos persas contemporâneos da escola de Balkh, Marsmanda era uma cidade situada em um clima tão frio e elevado que não possuía jardins, pomares frutíferos nem vinhedos, contrastando radicalmente com os oásis irrigados da Transoxiana. Apesar do inverno rigoroso que cobria as encostas de neve durante meses, o cronista relatou que o local contava com águas correntes puríssimas, pastagens de verão de beleza incomparável e uma feira mensal gigantesca onde mercadores de terras distantes negociavam dezenas de milhares de dinares em armas, ferramentas e lingotes de ferro e aço produzidos localmente. Durante décadas, arqueólogos percorreram os vales baixos do Uzbequistão e do Tadjiquistão em busca das ruínas de Marsmanda, sem jamais imaginar que uma metrópole inteira pudesse estar camuflada nos cumes varridos pelo vento acima de 2.000 metros.
A primeira pista concreta surgiu em 2011, quando Michael D. Frachetti e Farhod Maksudov caminhavam pelas cristas alpinas da reserva florestal de Zaamin e toparam com fragmentos de cerâmica vidrada, moedas e uma necrópole medieval no sítio de Tashbulak, a 2.100 metros de altitude. Quatro anos depois, em 2015, um guarda florestal local que inspecionava a região a apenas cinco quilômetros de distância alertou os pesquisadores de que havia encontrado fragmentos cerâmicos idênticos no quintal de sua estação nas montanhas, em uma área chamada Tugunbulak. Quando Frachetti e Maksudov subiram até o local, perceberam que as ondulações suaves cobertas por grama seca e arbustos espinhosos se estendiam por quilômetros de cristas e vales, mas a escala colossal do terreno e a erosão severa de mil anos tornavam impossível distinguir a olho nu onde terminava a montanha natural e onde começavam as muralhas construídas pelo homem.
A Revolução Forense no Ar: Como 22 Voos de Drone com LiDAR Despiram a Cordilheira de Malguzar
Mapear uma metrópole erodida de mais de um quilômetro quadrado em terreno montanhoso acidentado exigia uma tecnologia capaz de enxergar através da cobertura vegetal e detectar variações microtopográficas de poucos centímetros. Semelhante ao que ocorreu na descoberta da tumba subterrânea secreta sob o Tesouro de Petra na Jordânia e nas sondagens geofísicas na Formação de Durupınar próxima ao Monte Ararat, a arqueologia contemporânea depende de sensores não destrutivos de altíssima precisão, mas o Uzbequistão apresentava um obstáculo logístico formidável: leis rigorosas de segurança nacional restringem severamente o uso de aeronaves tripuladas e drones em seu espaço aéreo. Foram necessários anos de cooperação diplomática e científica até que a Academia de Ciências do Uzbequistão e as autoridades governamentais concedessem uma autorização especial inédita para a realização do primeiro levantamento arqueológico por UAV-LiDAR (LiDAR embarcado em veículo aéreo não tripulado) em toda a Ásia Central.
Instrumentação Laser GeoSLAM e Fotogrametria de Precisão Submétrica
Entre 5 e 22 de junho de 2022, a equipe operou nas encostas de Malguzar utilizando um drone hexacóptero de carga pesada DJI Matrice 600 Pro equipado com um scanner laser rotativo GeoSLAM Zeb Horizon, complementado por drones DJI Phantom 4 RTK dedicados à fotogrametria aérea de alta resolução. Ao longo de 22 missões de voo em Tugunbulak (cobrindo um polígono total de 165 hectares) e voos adicionais sobre Tashbulak (cobrindo 25 hectares), o sensor LiDAR disparou centenas de milhares de pulsos de laser por segundo contra o solo alpino, medindo o tempo exato de retorno de cada fóton refletido. Como os pulsos de laser penetram as frestas da grama da estepe e da vegetação rasteira, os pesquisadores conseguiram remover digitalmente toda a biomassa superficial para gerar Modelos Digitais de Terreno (DTM) com resolução espacial extraordinária de 15 a 25 centímetros por pixel.
Algoritmos de Visão Computacional e Esqueletização Topográfica
A nuvem de pontos bruta gerada pelos 22 voos revelou uma paisagem tão densamente recortada por trincheiras, terraços e muralhas soterradas que a interpretação manual levaria mais de uma década de desenho técnico. Para decifrar essa malha urbana, Frachetti recorreu aos cientistas da computação Tao Ju, Xiaoyi Liu e Jack Berner, da escola de engenharia McKelvey da Washington University in St. Louis, que desenvolveram um algoritmo inédito de geometria computacional voltado à "esqueletização" de cristas microtopográficas. O software analisou automaticamente os gradientes de curvatura do terreno em três dimensões, conectando elevações lineares sutis deixadas pelo colapso de muros antigos de terra batida (pakhsa) e alvenaria de pedra para traçar a planta arquitetônica exata de mais de 300 estruturas individuais em Tugunbulak.
Anatomia de Duas Metrópoles nas Nuvens: A Arquitetura Militar e Urbana de Tugunbulak e Tashbulak
Os mapas tridimensionais revelados na revista Nature surpreenderam a comunidade arqueológica mundial pela escala monumental e pelo planejamento defensivo sofisticado de ambas as cidades. Longe de serem acampamentos sazonais de tendas ou postos avançados improvisados, Tugunbulak e Tashbulak exibem uma arquitetura permanente adaptada à topografia íngreme entre 2.000 e 2.200 metros de altitude, combinando tradições construtivas das cidades-oásis da Transoxiana com o uso estratégico das cristas rochosas pelos povos nômades das estepes.
Tugunbulak: A Metrópole de 120 Hectares e Cinco Fortalezas Interligadas
Com uma área urbanizada contínua de aproximadamente 120 hectares, Tugunbulak ocupava uma posição dominante sobre os passos de montanha que conectavam o vale de Fergana e a bacia de Tashkent ao coração de Samarcanda. O escaneamento LiDAR revelou que a metrópole era protegida por um extenso sistema de muralhas defensivas externas erguidas ao longo das cristas íngremes, intercaladas por torres de vigia circulares e retangulares que controlavam visualmente todos os acessos do vale. No interior desse perímetro fortificado, a cidade organizava-se em torno de uma cidadela central elevada e de cinco grandes complexos fortificados (semelhantes a castelos interconectados), além de centenas de terraços residenciais escalonados nas encostas, praças abertas para caravanas e represamentos para captação de água de degelo.
Tashbulak: A Cidade-Irmã de 12 Hectares e Sua Necrópole Islâmica Inicial
Situada a apenas cinco quilômetros a oeste de Tugunbulak, a cerca de 2.100 metros de altitude, Tashbulak cobria aproximadamente 12 hectares — um décimo do tamanho de sua vizinha gigante —, mas desempenhava um papel residencial, administrativo e religioso complementar na rede montanhosa. O mapa a laser de Tashbulak destacou uma cidadela imponente em formato de monte artificial (tepe), dezenas de habitações densamente agrupadas, muralhas de contenção e uma vasta necrópole contendo pelo menos 400 sepultamentos alinhados segundo os ritos funerários islâmicos iniciais. Ao contrário de Tugunbulak, Tashbulak não apresentava grandes complexos industriais de fundição, funcionando provavelmente como um núcleo cívico, residencial e cerimonial integrado à economia metropolitana da cordilheira.
Tabela Técnica: Parâmetros Arqueológicos, Geofísicos e Históricos de Tugunbulak e Tashbulak
A tabela a seguir sintetiza os dados quantitativos, tecnológicos e cronológicos consolidados pelo estudo publicado na revista Nature (DOI: 10.1038/s41586-024-08086-5) e pelas campanhas da Washington University in St. Louis e do Centro Nacional de Arqueologia do Uzbequistão:
| Parâmetro Técnico / Histórico | Metrópole de Tugunbulak | Cidade de Tashbulak | Contexto Científico e Comparativo |
|---|---|---|---|
| Localização Geográfica | Cordilheira de Malguzar (Zaamin, Sudeste do Uzbequistão) | Cordilheira de Malguzar (5 km a oeste de Tugunbulak) | Região histórica medieval de Ustrushana (65 km de Jizzakh) |
| Altitude Acima do Nível do Mar | 2.000 a 2.200 metros | ~2.100 metros | Comparável a Machu Picchu (2.430 m); faixa habitada por <3% da humanidade |
| Área Urbana Mapeada | Tugunbulak tinha cerca de metade da área da Samarcanda medieval | ||
| Período de Ocupação (Radiocarbono) | Século VI ao início do Século XI d.C. (~550–1050 d.C.) | Século VIII ao início do Século XI d.C. (~730–1050 d.C.) | Apogeu durante o Império Qarakhanida (Caracânida) |
| Estruturas Arquitetônicas Detectadas | Mais de 300 edifícios, 5 fortalezas, cidadela e muralhas de crista | Quase 100 estruturas, cidadela central e necrópole de 400 tumbas | Construções em terra batida (pakhsa), tijolo cru e fundações de pedra |
| Tecnologia de Mapeamento Aéreo | 22 voos de drone DJI Matrice 600 Pro + sensor LiDAR GeoSLAM Zeb Horizon | Voos de drone UAV-LiDAR + fotogrametria DJI Phantom 4 RTK | Resolução do Modelo Digital de Terreno (DTM) de 15 a 25 cm/pixel |
| Processamento Computacional | Algoritmo de esqueletização microtopográfica (Tao Ju, Xiaoyi Liu, Jack Berner) | Classificação de nuvem de pontos e magnetometria terrestre (Edward Henry) | Reduziu décadas de topografia manual para semanas de análise |
| Atividade Econômica Principal | Siderurgia industrial pesada (fundição de minério de ferro e forja de aço) | Comércio de caravanas, administração, pastoreio alpino e centro religioso | Provável identificação física da lendária Marsmanda de Ibn Hawqal |
| Causa Provável do Abandono | Desmatamento severo das florestas de zimbro (Juniperus) e mudança política | Colapso da rede econômica regional no início do século XI d.C. | Esgotamento do carvão vegetal inviabilizou os fornos de alta temperatura |
A "Cidade do Ferro" dos Nômades Qarakhanidas: Siderurgia Industrial a 2.200 Metros
Para confirmar o que existia sob as anomalias geométricas apontadas pelo algoritmo de computador, os arqueólogos abriram trincheiras de escavação seletivas em um dos cinco grandes recintos fortificados de Tugunbulak — um edifício monumental protegido por espessas paredes de barro socado (pakhsa) e fundações de rocha calcária. O que emergiu das camadas estratigráficas não foram aposentos palacianos ociosos, mas uma verdadeira fábrica metalúrgica medieval preservada in situ. Os pesquisadores desenterraram fornos de fundição abobadados de tijolos refratários, canais de ventilação (tuyères), depósitos de carvão vegetal e densos estratos de escória negra vitrificada resultantes da redução de minério de ferro em altíssimas temperaturas.
A escolha de construir uma metrópole industrial a 2.200 metros de altitude obedecia a uma lógica de engenharia termodinâmica e logística brilhante. As montanhas de Malguzar abrigam ricos veios superficiais de hematita e magnetita, enquanto suas encostas eram, na Idade Média, cobertas por densas florestas de zimbro-turquestão (Juniperus seravschanica e Juniperus semiglobosa), uma madeira resinosa e densa que produz carvão vegetal de altíssimo poder calorífico. Além disso, os ventos constantes e violentos canalizados pelos desfiladeiros alpinos funcionavam como foles naturais gigantescos para alimentar a combustão dos fornos, permitindo aos metalurgistas alcançar as temperaturas críticas necessárias para fundir o ferro e produzir aço de alto carbono (incluindo variantes de aço de cadinho altamente cobiçadas no mundo islâmico).
Sob o domínio do Império Qarakhanida (999–1212 d.C.) — a primeira grande dinastia de origem nômade turca na Ásia Central a converter-se oficialmente ao Islã e a governar tanto as estepes quanto as metrópoles de Bukhara e Samarcanda —, o controle da produção de aço em Tugunbulak representava a chave da supremacia militar e econômica. De suas oficinas saíam espadas curvas, pontas de lança e flecha, cotas de malha, ferraduras para milhares de cavalos de guerra e arados agrícolas que eram escoados pelas rotas montanhosas até os mercados da Transoxiana, da Pérsia e da China Tang e Song. A descoberta comprova que os povos historicamente rotulados como "nômades pastores" não eram meros saqueadores ou intermediários passivos das caravanas das planícies, mas engenheiros urbanos e produtores industriais que ditavam os termos do comércio na Rota da Seda.
O Colapso Ecológico do Século XI e a Reescrita da História da Rota da Seda
Tanto quanto sua ascensão espetacular, o desaparecimento súbito de Tugunbulak e Tashbulak na primeira metade do século XI d.C. oferece uma lição histórica profunda sobre os limites ambientais da industrialização pré-moderna. Nenhum sinal de destruição catastrófica por invasão estrangeira — como as campanhas mongóis de Gêngis Khan, que só ocorreriam quase dois séculos mais tarde, na década de 1220 — foi registrado nas camadas finais de ocupação das duas cidades. Em vez disso, as análises geoarqueológicas e paleoambientais apontam para uma crise de sustentabilidade energética provocada pelo próprio sucesso da siderurgia local.
Para produzir uma única tonelada de ferro forjado em fornos medievais, era necessário queimar várias toneladas de carvão vegetal obtido das árvores de zimbro de crescimento extremamente lento nas encostas acima de 2.000 metros. Após quatro a cinco séculos de extração contínua de madeira para alimentar centenas de fornalhas industriais e aquecer uma população urbana de milhares de habitantes durante os invernos congelantes, as florestas de Malguzar sofreram um desmatamento severo. Sem a cobertura florestal para reter a neve e estabilizar as vertentes íngremes, o regime hídrico dos rios de montanha alterou-se drasticamente, a erosão das encostas acelerou e o custo de transportar combustível de vales cada vez mais distantes tornou a operação metalúrgica economicamente inviável, levando ao esvaziamento das metrópoles e à sua lenta reabsorção pela estepe alpina.
Nas próximas temporadas de campo planejadas por Michael D. Frachetti e Farhod Maksudov, a missão conjunta pretende expandir as escavações para a cidadela central de Tugunbulak e aplicar análises metalográficas e isotópicas nas escórias e artefatos de aço, rastreando em quais campos de batalha e mercados da Eurásia as lâminas forjadas em Malguzar foram parar. Ao demonstrar que drones com laser LiDAR e visão computacional podem revelar cidades de 120 hectares onde antes se viam apenas pastagens vazias, a descoberta de Tugunbulak e Tashbulak inaugura uma nova era na arqueologia das montanhas — provando que o verdadeiro coração industrial da Rota da Seda batia acima das nuvens.
Perguntas Frequentes (FAQ)
Como os arqueólogos conseguiram descobrir as cidades perdidas de Tugunbulak e Tashbulak nas montanhas do Uzbequistão?
A descoberta e o mapeamento completo das duas metrópoles medievais foram realizados por uma missão conjunta liderada pelo professor Michael D. Frachetti, da Washington University in St. Louis, e por Farhod Maksudov, diretor do Centro Nacional de Arqueologia da Academia de Ciências do Uzbequistão, através da primeira campanha de escaneamento aéreo por LiDAR acoplado a drones na Ásia Central. Durante três semanas de trabalho intensivo na cordilheira de Malguzar, os pesquisadores executaram 22 voos com um drone hexacóptero DJI Matrice 600 Pro equipado com um sensor laser GeoSLAM Zeb Horizon, varrendo 165 hectares em Tugunbulak e 25 hectares em Tashbulak. Os feixes de laser atravessaram a vegetação rasteira da estepe alpina e, combinados a algoritmos de visão computacional desenvolvidos por Tao Ju e Xiaoyi Liu, revelaram com precisão submétrica de 15 a 25 centímetros mais de 300 edifícios, muralhas defensivas, torres de vigia e forjas subterrâneas que a erosão havia camuflado como simples colinas naturais.
Por que a metrópole de Tugunbulak é associada pelos historiadores à lendária Cidade do Ferro de Marsmanda?
A associação direta entre o complexo arqueológico de Tugunbulak e a antiga cidade de Marsmanda decorre da extraordinária convergência entre os achados materiais das escavações e os relatos geográficos árabes e persas do século X, especialmente a obra clássica Kitab Surat al-Ard escrita pelo cronista e viajante Ibn Hawqal. Nos manuscritos medievais da região histórica de Ustrushana, Marsmanda era descrita como um centro comercial e metalúrgico situado em montanhas geladas, desprovido de pomares ou vinhedos devido ao frio extremo, mas cercado por pastagens alpinas vibrantes, rios cristalinos e forjas que atraíam mercadores de armas de toda a Eurásia. Quando a equipe arqueológica escavou o interior de um dos cinco castelos fortificados de Tugunbulak a 2.200 metros de altitude, encontrou espessas camadas de escória negra de ferro, fornalhas de fundição e carvão de árvores de zimbro, comprovando uma siderurgia em escala industrial que transformava o minério das montanhas em aço de alto carbono e armamentos.
O que levou ao colapso e ao abandono definitivo dessas cidades fortificadas da Rota da Seda no século XI?
As datações por radiocarbono de amostras orgânicas e carvão vegetal indicam que tanto Tugunbulak quanto Tashbulak floresceram entre os séculos VI e XI d.C., atingindo seu apogeu urbano e produtivo sob o domínio do Império Qarakhanida antes de serem abruptamente abandonadas na primeira metade do século XI. Embora transformações geopolíticas e conflitos militares nas rotas comerciais da Ásia Central tenham contribuído para a desestabilização regional, as evidências arqueobotânicas apontam para um colapso ecológico severo provocado pela própria indústria siderúrgica que enriqueceu a metrópole. Para manter centenas de fornos metalúrgicos operando em altíssimas temperaturas durante séculos, os fundidores abateram de forma exaustiva as densas florestas nativas de zimbro das encostas de Malguzar, esgotando o combustível vegetal indispensável para a forja do aço e desencadeando processos de erosão do solo que tornaram insustentável a manutenção de uma população urbana em altitude extrema.
Referências e Fontes Científicas Oficiais
- Nature (Artigo Científico Original): Frachetti, M. D., Berner, J., Liu, X., Henry, E. R., Maksudov, F., & Ju, T. — Large-scale medieval urbanism traced by UAV–lidar in highland Central Asia (DOI:
10.1038/s41586-024-08086-5). - Washington University in St. Louis (WashU): Lost Silk Road cities uncovered in mountains of Uzbekistan using drone LiDAR.
- Colorado State University (CSU): Archaeologists map lost medieval cities in Central Asia using drone-based LiDAR and geophysics.
- Smithsonian Magazine: Archaeologists Discover Two Lost Silk Road Cities High in the Mountains of Uzbekistan.







