Bank of America Aceita Pagar US$ 72,5 Milhões Para Encerrar Caso Epstein
Quando Jeffrey Epstein morreu em sua cela no Metropolitan Correctional Center de Manhattan em agosto de 2019, muitos acreditaram que seus segredos morreriam com ele. Estavam errados. Sete anos depois, em 27 de março de 2026, o Bank of America se tornou o terceiro gigante do sistema financeiro americano a admitir — de forma implícita, ao concordar em pagar — que suas mãos não estavam tão limpas quanto afirmava. O acordo de US$ 72,5 milhões é o mais recente capítulo de uma história que expõe como os maiores bancos do mundo viram, toleraram e lucraram com uma rede de tráfico sexual que operou por mais de duas décadas.
A cifra parece alta, mas é reveladoramente pequena quando comparada ao faturamento anual do Bank of America: US$ 98,6 bilhões em 2025. É como se uma pessoa que ganha R$ 100 mil por ano pagasse uma multa de R$ 73. Suficiente para encerrar o caso. Insuficiente para doer.

O Que o Bank of America Fez (e Deixou de Fazer)
O processo movido pelas vítimas — representadas em ação coletiva aprovada pelo juiz federal Jed Rakoff em Manhattan — acusou o Bank of America de:
1. Ignorar alertas de atividade suspeita
O banco manteve contas vinculadas a Epstein e seus associados mesmo após múltiplos alertas internos de lavagem de dinheiro e transações incompatíveis com o perfil declarado. Segundo documentos do processo, pelo menos 14 relatórios de atividade suspeita (SARs) foram protocolados internamente entre 2008 e 2019 — mas nenhum resultou em fechamento de conta ou notificação às autoridades.
2. Facilitar transferências para contas vinculadas ao tráfico
Transferências regulares para contas em paraísos fiscais associadas a Epstein — Ilhas Virgens, Bermuda e Ilhas Cayman — movimentaram estimados US$ 830 milhões ao longo de 11 anos. Os valores eram compatíveis com pagamentos a vítimas, aluguel de propriedades usadas para abuso e financiamento de viagens internacionais.
3. Manter tratamento VIP apesar dos alertas
Epstein era classificado como cliente "Wealth Management Private Banking" — a categoria de maior prestígio do banco, reservada para patrimônios acima de US$ 10 milhões. Essa classificação lhe garantia gestores de conta dedicados, taxas reduzidas e, crucialmente, menos escrutínio regulatório.
"Os bancos tinham todas as informações necessárias para agir", argumentou David Boies, advogado das vítimas. "Escolheram não agir porque Epstein era lucrativo. Cada dia que mantiveram suas contas abertas foi um dia que facilitaram a continuação dos crimes."
A resposta do Bank of America
Em comunicado oficial, o banco negou qualquer responsabilidade: "O Bank of America não facilitou crimes de tráfico sexual. Este acordo foi alcançado para evitar os custos prolongados e a incerteza de um julgamento." O banco não admitiu culpa como parte do acordo — padrão em quase todos os settlements corporativos desse tipo nos EUA.

O Placar dos Bancos: US$ 462 Milhões em Acordos
O Bank of America se junta a dois outros gigantes que já fecharam acordos bilionários semelhantes:
| Banco | Valor do acordo | Ano | Período das contas |
|---|---|---|---|
| JPMorgan Chase | US$ 290 milhões | 2023 | 1998-2013 |
| Deutsche Bank | US$ 75 milhões | 2023 | 2013-2018 |
| Bank of America | US$ 72,5 milhões | 2026 | 2008-2019 |
| Total | US$ 437,5 milhões | — | — |
Há rumores de que pelo menos mais dois bancos estão sob investigação, mas nenhum acordo adicional foi anunciado até o momento.
JPMorgan: O caso que abriu a comporta
O JPMorgan Chase foi o primeiro a cair. Manteve contas de Epstein por 15 anos — incluindo 5 anos após a condenação de Epstein por crimes sexuais na Flórida em 2008. O que tornou o caso particularmente escandaloso foi a revelação de que Jes Staley, ex-executivo do JPMorgan e depois CEO do Barclays, manteve relação pessoal próxima com Epstein e trocou milhares de e-mails com ele — incluindo mensagens com conteúdo explícito.
Deutsche Bank: A transição reveladora
Quando o JPMorgan finalmente encerrou a conta de Epstein em 2013, o financista simplesmente migrou para o Deutsche Bank — que aceitou o cliente apesar de todo o histórico público. O banco alemão manteve as contas abertas até 2018, quando a imprensa começou a investigar.
Os Alertas Que Foram Ignorados
A documentação judicial revelou padrões de transações que qualquer sistema de compliance moderno deveria ter detectado:
Padrões suspeitos identificados:
- Saques em espécie de US$ 9.500 a US$ 9.900 (logo abaixo do limite de US$ 10.000 que dispara relato obrigatório ao FinCEN) — técnica clássica chamada "structuring"
- Transferências internacionais para entidades em ilhas offshore sem justificativa comercial
- Pagamentos recorrentes a dezenas de mulheres jovens classificados como "serviços de massagem" ou "serviços pessoais"
- Movimentação de aeronaves — pagamentos para hangar, combustível e tripulação do Boeing 727 de Epstein (apelidado de "Lolita Express")
- Compras de imóveis em nome de LLCs (empresas de responsabilidade limitada) sem proprietário identificável
"O sistema bancário americano é projetado para detectar exatamente esse tipo de atividade", explicou Michael Barr, ex-vice-presidente de supervisão do Federal Reserve. "Quando um banco ignora esses sinais, a pergunta é: por que? A resposta quase sempre é dinheiro."
O Contexto: Como Epstein Operava
Para entender a culpa dos bancos, é necessário entender a escala da operação de Epstein:
A rede de propriedades
- Manhattan — townhouse de 7 andares na 9 East 71st Street (avaliada em US$ 56 milhões)
- Palm Beach — mansão na El Brillo Way
- Novo México — rancho Zorro de 30.000 acres
- Paris — apartamento no 8º arrondissement
- Ilhas Virgens — Little Saint James ("Ilha Epstein") e Great Saint James
- Londres — propriedade em Belgravia
Os números da operação
- Período de abusos documentados: 1998-2019 (21 anos)
- Vítimas identificadas judicialmente: mais de 200 mulheres e meninas
- Menores de idade entre as vítimas: pelo menos 36
- Transferências financeiras documentadas: mais de US$ 2,4 bilhões ao longo de duas décadas
- Associados investigados: 170+ (lista não totalmente pública)
A Audiência de 2 de Abril: Próximos Passos
O acordo do Bank of America ainda precisa ser aprovado pelo juiz Jed Rakoff em audiência marcada para 2 de abril de 2026. Se aprovado:
- As vítimas que sofreram abuso sexual por Epstein ou seus associados entre 30 de junho de 2008 e 6 de julho de 2019 poderão solicitar compensação
- O valor individual dependerá do número de reclamantes e da gravidade documentada de cada caso
- O Bank of America será protegido contra futuras ações judiciais relacionadas ao caso
O que diz a lei
Nos EUA, o Trafficking Victims Protection Act (TVPA) estabelece que instituições que "sabiam ou deveriam saber" sobre tráfico sexual e se beneficiaram financeiramente podem ser responsabilizadas civilmente. Foi sob essa lei que os três acordos foram alcançados.

A Pergunta Incômoda: O Sistema Funciona?
Os US$ 437,5 milhões em acordos representam uma conquista real para as vítimas — muitas das quais nunca receberam qualquer compensação durante décadas de abuso. Mas para os bancos, os valores são irrelevantes em termos operacionais.
O cálculo cínico
- JPMorgan teve lucro líquido de US$ 49,6 bilhões em 2025
- Deutsche Bank: €5,7 bilhões
- Bank of America: US$ 27,1 bilhões
Os acordos representam entre 0,07% e 0,6% do lucro anual. Menos que um arredondamento contábil.
"O atual sistema de enforcement financeiro é projetado para punir erros, não para preveni-los", argumentou Dennis Kelleher, presidente do Better Markets, organização de defesa do consumidor financeiro. "Quando a multa por facilitar tráfico sexual é menor que o bônus de um trader, o sistema está fundamentalmente quebrado."
O que poderia mudar?
- Responsabilidade criminal individual: processar executivos que aprovaram ou ignoraram alertas, não apenas a instituição
- Multas proporcionais ao lucro: acordos vinculados a um percentual do faturamento (modelo europeu)
- Revogação de licenças: suspensão temporária da autorização bancária para reincidentes
- Whistleblower rewards: recompensar funcionários que denunciem internamente
O Legado de Epstein: 7 Anos Depois
Sete anos após a morte de Jeffrey Epstein, o caso continua produzindo consequências:
- Ghislaine Maxwell cumpre sentença de 20 anos em prisão federal
- Listas de associados foram parcialmente divulgadas por ordem judicial em 2024
- Jean-Luc Brunel, modelo scout associado a Epstein, morreu na prisão na França em 2022 (suicídio oficial)
- Príncipe Andrew fez acordo extrajudicial estimado em US$ 12 milhões com Virginia Giuffre
- Jes Staley foi banido do setor financeiro pelo regulador britânico em 2023
O caso também inspirou mudanças legislativas em pelo menos 7 estados americanos, ampliando prazos de prescrição para crimes sexuais e fortalecendo obrigações de reporte para instituições financeiras.
O Sistema Anti-Lavagem que Falhou: Como Funciona (E Não Funciona)
Os bancos americanos são obrigados por lei a operar sistemas de prevenção à lavagem de dinheiro sob o Bank Secrecy Act (BSA) e regulamentações do FinCEN (Financial Crimes Enforcement Network). O sistema possui três camadas:
Camada 1: Know Your Customer (KYC)
Ao abrir uma conta, o banco deve verificar a identidade do cliente, sua fonte de renda e atividades comerciais. Para clientes de alta renda como Epstein, o processo é mais rigoroso — teoricamente exigindo documentação de patrimônio e perfil de transações esperado.
No caso de Epstein, documentos revelaram que o Bank of America classificou sua atividade como "consultoria de investimentos" — apesar de Epstein não ter licença registrada na SEC para operar como consultor financeiro. Essa categorização incorreta permitiu que transações incompatíveis com consultoria (pagamentos massivos a indivíduos, transferências offshore) não disparassem alertas automáticos.
Camada 2: Transaction Monitoring
Sistemas automatizados monitoram todas as transações em busca de padrões suspeitos: valores incomuns, destinatários em países de alto risco, frequência anormal, "structuring" (dividir transações para evitar limites de reporte).
No caso do BofA, os sistemas detectaram e geraram 14 SARs (Suspicious Activity Reports) internos — confirmando que os alertas funcionavam. O problema foi que esses relatórios foram revisados e arquivados sem ação, em vez de serem escalados ou reportados ao FinCEN como requerido por lei.
Camada 3: Enhanced Due Diligence (EDD)
Clientes de alto risco (PEPs — Politically Exposed Persons, clientes em jurisdições de alto risco, ou com histórico criminal) devem receber escrutínio adicional contínuo. Epstein — que foi condenado por crimes sexuais na Flórida em 2008 — deveria ter sido classificado como cliente de alto risco automaticamente.
A investigação revelou que a equipe de compliance do BofA não reclassificou Epstein após sua condenação de 2008, mantendo-o na categoria padrão de cliente private banking. Internamente, essa decisão foi atribuída a "falha de comunicação entre departamentos" — uma explicação que advogados das vítimas chamaram de "insulto à inteligência".
O Custo do Silêncio: Análise Econômica
Os bancos mantiveram Epstein como cliente por uma razão simples: ele era extremamente lucrativo. Estimativas baseadas em documentos judiciais indicam:
| Receita para os bancos | Valor estimado |
|---|---|
| Taxas de gestão de conta | US$ 2,1M/ano |
| Comissões de transações | US$ 3,4M/ano |
| Taxas de transferência internacional | US$ 1,8M/ano |
| Receita de produtos (seguros, câmbio) | US$ 890K/ano |
| Total estimado (3 bancos, 21 anos) | US$ 170+ milhões |
Os US$ 437,5 milhões em acordos representam aproximadamente 2,5 vezes a receita total estimada que os bancos obtiveram de Epstein. É uma das raras ocasiões em que as multas superaram os lucros — embora não por uma margem que cause mudança sistêmica.
Reforma Regulatória: O Que Poderia Ter Prevenido
Especialistas em compliance financeiro propõem reformas estruturais:
1. Responsabilidade criminal individual
Em vez de multas corporativas, processar criminalmente os compliance officers e gerentes de conta que aprovaram ou ignoraram alertas. Na Suíça, isso já é lei desde 2016.
2. Multas como % do faturamento
O modelo europeu de regulação (inspirado no GDPR) aplica multas de até 4% do faturamento global. Para o JPMorgan, isso significaria uma multa potencial de US$ 5,5 bilhões — versus os US$ 290 milhões pagos.
3. Licenças condicionais
Bancos com violações repetidas de BSA/AML teriam licenças bancárias condicionadas, com monitoramento externo obrigatório. O Rabobank (Holanda) já opera sob esse regime desde 2024.
4. Proteção a denunciantes
Ampliar os programas de whistleblower do FinCEN, que atualmente pagam entre 10% e 30% das multas recuperadas a denunciantes. Um compliance officer do Bank of America que tivesse denunciado poderia ter recebido entre US$ 7,25 e 21,75 milhões.
O Sistema Anti-Lavagem Que Falhou
O Bank Secrecy Act exige tres camadas: KYC que deveria ter classificado Epstein como alto risco apos condenacao de 2008, Transaction Monitoring que gerou 14 SARs internos que foram arquivados sem acao, e Enhanced Due Diligence que nao foi aplicada. Epstein era classificado como consultoria de investimentos apesar de nao ter licenca SEC, permitindo que transferencias offshore nao disparassem alertas.
A receita estimada dos tres bancos com Epstein totalizou 170 milhoes de dolares em 21 anos, incluindo taxas de gestao, comissoes e transferencias internacionais. Os 437 milhoes em acordos representam apenas 2,5 vezes essa receita. Reformas propostas incluem responsabilidade criminal individual para compliance officers, multas como porcentagem do faturamento no modelo europeu de ate 4 por cento, licencas condicionais, e protecao a denunciantes com recompensas de 10 a 30 por cento das multas.
FAQ — Perguntas Frequentes
O Bank of America admitiu culpa?
Não. Como é padrão em acordos judiciais corporativos nos EUA, o Bank of America não admitiu qualquer responsabilidade. O banco afirmou que "não facilitou crimes de tráfico sexual" e que o acordo foi motivado pelo desejo de evitar custos de litígio prolongado. Legalmente, isso significa que o banco paga sem reconhecer formalmente que fez algo errado — uma prática criticada por ativistas como uma forma de comprar silêncio sem consequências reputacionais duradouras.
Quem pode receber parte dos US$ 72,5 milhões?
O acordo cobre mulheres que sofreram abuso sexual por Epstein ou seus associados entre 30 de junho de 2008 e 6 de julho de 2019. As reclamantes precisam registrar-se junto ao tribunal até a data limite que será definida pelo juiz Rakoff. O valor individual depende do número de reclamantes, da gravidade do abuso documentado e de outras compensações já recebidas em processos anteriores.
Outros bancos podem ser processados?
Sim. Investigações estão em andamento contra pelo menos mais duas instituições financeiras que supostamente mantiveram contas vinculadas a Epstein ou seus associados. Os nomes não foram divulgados publicamente. Além de bancos, escritórios de advocacia e agências de recrutamento utilizadas por Epstein também enfrentam ações judiciais.
Por que demorou tanto?
Investigações bancárias são complexas porque envolvem sigilo financeiro, regulações internacionais e a necessidade de provar que o banco "sabia ou deveria saber" das atividades criminosas. Além disso, a morte de Epstein em 2019 complicou a obtenção de testemunhos e a verificação de documentos. O processo contra o Bank of America começou em 2022 e levou 4 anos para chegar a um acordo.
Fontes e Referências
- CBS News — "Bank of America agrees to pay $72.5 million to settle Epstein lawsuit" (27/03/2026)
- Business Insider — "BofA Epstein settlement details: Who qualifies and what's next" (28/03/2026)
- American Banker — "BofA follows JPMorgan, Deutsche Bank in Epstein settlements" (28/03/2026)
- Insurance Journal — "Bank of America Epstein settlement awaits court approval" (28/03/2026)
- Seeking Alpha — "BAC: Epstein settlement impact on Q2 earnings" (28/03/2026)
Para mais sobre responsabilidade corporativa, leia também nosso artigo sobre o acordo Kevin Spacey em Hollywood e os protestos "No Kings" nos EUA.





