🌍 Seu portal de conhecimento
historia

A Arte Rupestre Mais Antiga do Mundo: Estudo na Nature Revela Pintura Narrativa de 51.200 Anos em Sulawesi

📅 2026-11-04⏱️ 12 min de leitura📝
A Arte Rupestre Mais Antiga do Mundo: Estudo na Nature Revela Pintura Narrativa de 51.200 Anos em Sulawesi
A Arte Rupestre Mais Antiga do Mundo: Estudo na Nature Revela Pintura Narrativa de 51.200 Anos em Sulawesi — Ilustração Artística de Alta Fidelidade criada por inteligência artificial baseada em pesquisas científicas.
⚡

Resumo Rápido

Cientistas descobrem na caverna de Leang Karampuang a mais antiga cena narrativa e arte figurativa da humanidade, superando a Europa em quase 20 mil anos. Uma equipe internacional de arqueólogos, geoquímicos e especialistas em arte rupestre acaba de anunciar a descoberta da mais antiga manifestação de arte figurativa e narrativa já registrada na história da humanidade.

Principais Destaques da Reportagem:

  • A capacidade de conceber, compartilhar e registrar narrativas míticas representa o divisor de águas mais profundo entre a mente do Homo sapiens e as demais espécies animais do planeta.
  • A datação rigorosa da arte rupestre sempre constituiu um dos maiores desafios técnicos e metodológicos de toda a ciência arqueológica moderna.
  • A composição artística preservada no teto e na parede inclinada da câmara de Leang Karampuang possui dimensões totais de 136 centímetros por 54 centímetros, executada com traços firmes e deliberados de ocre avermelhado rico em…

Uma equipe internacional de arqueólogos, geoquímicos e especialistas em arte rupestre acaba de anunciar a descoberta da mais antiga manifestação de arte figurativa e narrativa já registrada na história da humanidade. A obra-prima pré-histórica, pintada em ocre mineral vermelho nas paredes calcárias da caverna de Leang Karampuang, na região cárstica de Maros-Pangkep, no sul da ilha de Sulawesi (Indonésia), possui pelo menos 51.200 anos de antiguidade comprovada. A pesquisa, publicada como capa da prestigiada revista científica Nature, reescreve de forma irreversível a cronologia do surgimento da cognição humana, da imaginação simbólica e da capacidade de contar histórias por meio de imagens.

O painel retrata uma complexa cena de interação entre três figuras antropomórficas e um grande javali-verrugoso-de-sulawesi (Sus celebensis), compondo o que os pesquisadores classificam como a mais antiga "história visual" do registro fóssil mundial. Até então, o consenso acadêmico ocidental situava o nascimento da narrativa artística nas célebres cavernas europeias de Chauvet e Lascaux, na França, ou em El Castillo, na Espanha, cujas pinturas figurativas mais refinadas remontam a cerca de 36.000 a 40.000 anos atrás. O achado em Sulawesi antecede o cânone europeu em mais de 15 milênios, transferindo o epicentro da revolução cognitiva da nossa espécie para as rotas tropicais do sudeste asiático.

A comprovação científica do sítio arqueológico foi possível graças a uma nova e revolucionária metodologia de datação por ablação a laser acoplada à série de decaimento do urânio (LA-U-series). Desenvolvida em conjunto por pesquisadores da Griffith University, da agência científica estatal indonésia BRIN (Badan Riset dan Inovasi Nasional) e da Southern Cross University, a tecnologia permitiu dissecar as microcamadas minerais de carbonato de cálcio formadas sobre a tinta sem comprometer a integridade dos pigmentos milenares.


O Enigma Antropológico: Quando Nascemos Como Criadores de Histórias? #

A capacidade de conceber, compartilhar e registrar narrativas míticas representa o divisor de águas mais profundo entre a mente do Homo sapiens e as demais espécies animais do planeta. Embora sinais geométricos abstratos e marcas gravadas em pedras ou conchas tenham sido atribuídos a hominídeos mais antigos na África e na Eurásia, a arte narrativa exige um salto neurológico qualitativamente superior. Ela requer a habilidade de estruturar eventos no tempo, conceber interações entre seres distintos e projetar conceitos metafóricos que transcendem a observação imediata do mundo físico.

Durante décadas, a antropologia ensinou que essa faísca criativa teria se acendido tardiamente nas estepes frias da Europa do Paleolítico Superior. Essa visão eurocêntrica, conhecida como a "Grande Explosão Criativa", postulava que apenas as populações humanas que enfrentavam as pressões ecológicas da última glaciação europeia teriam desenvolvido a complexidade cultural necessária para pintar cenas dinâmicas de caça e xamanismo. As descobertas sucessivas nas cavernas de Sulawesi, iniciadas em 2014 e coroadas agora com Leang Karampuang, desmontaram definitivamente essa narrativa unilinear.

Os povos que habitaram os labirintos calcários de Maros-Pangkep há 51 milênios não eram apenas pintores amadores; eram mestres consumados da comunicação visual. Ao compor uma cena deliberada em que múltiplos atores participam de uma ação comum, os artistas pré-históricos de Sulawesi demonstraram que a tradição oral e a mitologia já eram práticas fundamentais e onipresentes na sociedade humana da época. Eles utilizavam as paredes escuras das cavernas como telas sagradas para transmitir lendas tribais, ritos de passagem e sistemas cosmológicos complexos para as gerações seguintes.

A paisagem em que esses primeiros contadores de histórias viviam era a Wallacea, uma fascinante zona biogeográfica de ilhas oceânicas cercadas por fossas marinhas profundas que nunca estiveram conectadas ao continente asiático nem à plataforma continental australiana. Para alcançar Sulawesi e continuar sua jornada épica rumo a Sahul (a massa terrestre unida que incluía Austrália e Nova Guiné), os seres humanos modernos tiveram que construir embarcações marítimas capazes de navegar em mar aberto há mais de 65.000 anos. O achado de Leang Karampuang prova que essa ousada vanguarda de navegadores transportava consigo uma cultura simbólica madura e extraordinariamente refinada.


A Tecnologia Forense: O Laser Microscópico da Série de Urânio (LA-U-series) #

A datação rigorosa da arte rupestre sempre constituiu um dos maiores desafios técnicos e metodológicos de toda a ciência arqueológica moderna. Como os pigmentos minerais de ocre vermelho são compostos por óxidos de ferro inorgânicos que não contêm carbono, o tradicional método do carbono-14 torna-se completamente ineficaz para datar diretamente a camada pictórica. Além disso, as técnicas prévias de série de urânio exigiam a raspagem mecânica de amostras de rocha com microbrocas cirúrgicas, um processo destrutivo que frequentemente misturava camadas de calcita de diferentes idades geológicas.

Para superar essas barreiras intransponíveis, a equipe liderada pelo professor Maxime Aubert e pelo geoquímico Renaud Joannes-Boyau desenvolveu o inovador sistema de datação por ablação a laser acoplada a espectrômetro de massa com plasma indutivo (LA-U-series). Em vez de extrair fragmentos físicos da parede da caverna, o equipamento dispara pulsos microscópicos de laser ultravioleta de espessura micrométrica sobre as delgadas crostas de calcita — conhecidas popularmente como "pipocas de caverna" ou espeleotemas coraloides — que cresceram lentamente sobre as tintas através do gotejamento secular de água mineralizada.

O laser vaporiza partículas invisíveis a olho nu ao longo de uma linha de varredura transversal que corta a crosta mineral desde a sua superfície externa até a interface exata com o pigmento vermelho. O vapor resultante é transportado por um fluxo inerte de gás hélio diretamente para o espectrômetro de massa, que quantifica com precisão atômica as concentrações dos isótopos de urânio-234 e seu produto de decaimento radiativo, o tório-230. Como o urânio é solúvel em água e se infiltra na calcita no momento de sua cristalização, enquanto o tório é insolúvel, a proporção acumulada de tório-230 fornece um relógio atômico infalível sobre a idade mínima de formação da crosta sobre a pintura.

Ao aplicar esse mapeamento isotópico de altíssima resolução espacial na caverna de Leang Karampuang, os pesquisadores conseguiram identificar a camada mais profunda de calcita assentada milimetricamente sobre a tinta de ocre. Os cálculos isotópicos revelaram uma idade estratigráfica mínima de 51.200 anos, com intervalos de confiança estatística estendendo-se até 53.500 anos atrás. Essa resolução espacial sem precedentes eliminou qualquer possibilidade de contaminação por calcita recente ou por lixiviação geológica, blindando a descoberta contra contestações técnicas e garantindo a máxima robustez empírica perante a comunidade acadêmica internacional.


Anatomia Completa das Evidências e Cena Narrativa #

A composição artística preservada no teto e na parede inclinada da câmara de Leang Karampuang possui dimensões totais de 136 centímetros por 54 centímetros, executada com traços firmes e deliberados de ocre avermelhado rico em hematita natural. A disposição dos elementos gráficos foge completamente do padrão de representações zoológicas isoladas, articulando os personagens em uma narrativa visual coesa que captura um momento de tensão dramática e significado cerimonial profundo.

O centro gravitacional da cena é um exemplar majestoso de javali-verrugoso-de-sulawesi (Sus celebensis), uma espécie de suídeo nativa das florestas da ilha que desempenhou papel crucial na subsistência das populações do Pleistoceno Tardio. O animal foi desenhado em perfil estrito, com quatro membros visíveis, dorso arqueado com cerdas dorsais estilizadas, cabeça proporcionalmente maciça e a boca sutilmente entreaberta. Duas proeminências circulares desenhadas sobre o focinho reproduzem com impressionante fidelidade anatômica as verrugas cartilaginosas características que os machos adultos da espécie desenvolvem como defesa em combates territoriais.

Três figuras antropomórficas interagem dinamicamente com o animal central em posições coreografadas ao redor da silhueta do suídeo:

  1. A Primeira Figura Frontal: Posicionada imediatamente à frente do focinho do javali, esta figura humana é retratada segurando um bastão ou lança alongada com as duas mãos estendidas, parecendo confrontar ou guiar o movimento da fera em curta distância.
  2. A Segunda Figura Dorsal: Localizada diretamente acima das costas do javali, esta figura parece pairar em posição invertida ou acrobática, estendendo os membros superiores na direção da cabeça do animal, sugerindo uma tentativa de contenção, domínio xamânico ou salto cerimonial.
  3. A Terceira Figura Teriantrópica: Posicionada na retaguarda da cena, esta silhueta combina membros e tronco humanos com uma cabeça zoomórfica estilizada com bico ou máscara de ave. A presença explícita de teriantropia — seres híbridos que mesclam traços humanos e animais — atesta a existência de crenças espirituais sofisticadas e sistemas de xamanismo totêmico estruturados há mais de 500 séculos.

Adicionalmente, a aplicação do novo método LA-U-series permitiu à equipe reavaliar outro célebre sítio arqueológico da região: a caverna de Leang Bulu' Sipong 4. Em 2019, esse painel de caça havia sido datado em 43.900 anos pelo método convencional de série de urânio. As novas análises a laser corrigiram essa estimativa para pelo menos 48.000 anos, demonstrando que a tradição artística em Maros-Pangkep não foi um evento isolado, mas uma cultura visual contínua e prolífica que prosperou por dezenas de milênios.


Tabela Técnica: Comparativo Forense das Artes Rupestres Mais Antigas do Mundo #

Parâmetro Físico / Arqueológico Leang Karampuang (Sulawesi, Indonésia) Leang Bulu' Sipong 4 (Sulawesi, Indonésia) Caverna de Chauvet (Ardèche, França) Caverna de Lascaux (Dordogne, França)
Idade Mínima Confirmada 51.200 anos AP (mínimo calibrado) 48.000 anos AP (recalibrado em 2024) ~36.000 a 37.000 anos AP ~17.000 a 21.000 anos AP
Tipo de Obra Artística Cena narrativa figurativa e teriantrópica Cena de caça com múltiplos teriantropos Painéis figurativos de megafauna Painéis monumentais de caça e bisões
Sujeito Central Representado Javali-verrugoso (Sus celebensis) e 3 humanos Anoa (Bubalus) e suídeos cercados Rinocerontes-lanudos, leões e cavalos Touros selvagens (auroques) e veados
Presença de Teriantropia Sim (figura híbrida com cabeça de ave) Sim (oito caçadores teriantrópicos) Parcial (figura humana com cabeça de bisão) Rara (homem com cabeça de pássaro)
Método Principal de Datação LA-U-series (ablação a laser em calcita) LA-U-series (ablação a laser em calcita) Carbono-14 (AMS) de carvão vegetal Carbono-14 (AMS) e estratigrafia
Pigmento Utilizado Ocre mineral vermelho (hematita rica) Ocre mineral vermelho (hematita rica) Carvão vegetal preto e ocre vermelho Óxidos de ferro, manganês e carvão
Contexto Antropogeográfico Migração de Homo sapiens em Wallacea Tradição cárstica de caçadores de Wallacea Paleolítico Superior europeu (Aurignaciano) Paleolítico Superior europeu (Madaleniano)
Publicação Científica Revista Nature (Oktaviana et al.) Revista Nature (Aubert et al.) Comptes Rendus Palevol / CNRS Diversos estudos históricos franceses

A Rota Para Sahul e a Revolução Cognitiva em Wallacea #

A constatação de que a arte figurativa e narrativa mais antiga da Terra foi produzida no sudeste da Ásia altera profundamente a compreensão das rotas migratórias do Homo sapiens. Ao saírem do berço africano há mais de 70.000 anos, os primeiros grupos humanos modernos que avançaram pela orla costeira do Oceano Índico encontraram em Sunda — a gigantesca plataforma continental que unia a Península Malaia, Sumatra, Java e Bornéu — uma paisagem riquíssima em recursos aquáticos e terrestres.

Entretanto, para avançar além de Bornéu rumo ao leste, esses desbravadores depararam-se com a barreira biogeográfica da Linha de Wallace. As ilhas de Sulawesi, Flores, Timor e as Molucas sempre estiveram isoladas por estreitos marítimos profundos sujeitos a correntes oceânicas ferozes. A travessia dessas águas exigiu planejamento náutico cooperativo, capacidade de construção de jangadas ou pirogas de bambu e uma navegação astronômica rudimentar. A descoberta de Leang Karampuang comprova que os marinheiros que venceram essas correntes eram seres humanos plenamente modernos do ponto de vista cognitivo e espiritual.

A iconografia teriantrópica observada em Sulawesi possui paralelos impressionantes com as tradições míticas do "Tempo do Sonho" (Dreamtime) dos povos originários da Austrália. Pesquisas bioantropológicas e genômicas sugerem que as linhagens populacionais que pintaram Leang Karampuang há 51.200 anos estavam intimamente aparentadas com os primeiros navegadores que aportaram em Sahul há cerca de 65.000 anos. As narrativas em ocre de Sulawesi seriam, portanto, o reflexo mais antigo preservado de um sistema cosmológico que sobreviveu e floresceu na arte aborígene australiana por dezenas de milhares de anos.

Essa nova perspectiva historiográfica desloca a Europa da posição de epicentro intelectual do planeta pré-histórico. Em vez de ser o berço isolado da arte e da filosofia, o continente europeu surge agora como um desdobramento ocidental de uma faculdade humana universal que já estava plenamente desenvolvida e espalhada pelos arquipélagos tropicais do hemisfério oriental muito antes das primeiras estatuetas de marfim de Hohle Fels ou das pinturas murais de Chauvet serem esculpidas.


Bastidores da Expedição, Ameaças e Preservação Emergencial #

A revelação monumental de Leang Karampuang foi fruto de mais de uma década de expedições extenuantes nas florestas cársticas de Maros-Pangkep, lideradas pelo arqueólogo indonésio Dr. Adhi Agus Oktaviana. A região é célebre por suas colunas colossais de calcário que emergem verticalmente de arrozais inundados, abrigando centenas de fendas e cavernas de difícil acesso, muitas das quais só podem ser alcançadas através de escaladas íngremes em meio a paredões escorregadios sob calor e umidade equatoriais intensos.

Durante a exploração sistemática da caverna em 2021, a equipe de Oktaviana identificou o painel de ocre parcialmente recoberto por concreções salinas. Sabendo do risco de destruição que métodos de amostragem agressivos trariam para a pintura milenar, o grupo selou o sítio e coordenou uma missão laboratorial com os pioneiros da tecnologia LA-U-series da Universidade Southern Cross, na Austrália. Foram necessários mais de dois anos de testes de validação em laboratórios de sala limpa para garantir que a leitura dos sinais atômicos atendesse aos padrões de publicação da revista Nature.

Apesar do triunfo científico, os pesquisadores alertam para uma crise de conservação sem precedentes que ameaça destruir esse patrimônio da humanidade antes que ele possa ser plenamente estudado. Nas últimas duas décadas, o avanço desenfreado de indústrias de cimento e mineração de calcário na província de Sulawesi do Sul causou vibrações tectônicas locais e poluição particulada nas imediações dos sítios cársticos. Além disso, as mudanças climáticas globais intensificaram os ciclos extremos de seca e chuvas torrenciais causados pelo fenômeno El Niño, provocando o acúmulo acelerado de cristais de sal nas paredes rochosas.

Esse processo de haloclastia cristalina expande microscopicamente a rocha sob a camada de tinta, fazendo com que as películas de ocre de 51.200 anos descasquem e caiam no chão como flocos de poeira a cada temporada. O governo indonésio e a UNESCO iniciaram projetos emergenciais para monitorar microclimas no interior das cavernas, instalar sensores ambientais e digitalizar todas as paredes decoradas em modelos tridimensionais milimétricos com escâneres LiDAR de alta densidade. Preservar Leang Karampuang é garantir que a primeira página escrita da imaginação humana continue legível para os séculos futuros.


🏷️ Tags:

#arterupestremaisantigamundo#pinturarupestreSulawesi51200anos#LeangKarampuangMarosPangkep#estudoNatureartenarrativa#SuscelebensisjavaliSulawesi#AdhiAgusOktavianaBRIN#MaximeAubertGriffithUniversity#laserablationuraniumseriesLA-U-series

📢 Gostou deste artigo?

Compartilhe com seus amigos e nos conte o que você achou nos comentários!

❓Perguntas Frequentes

A arte rupestre de Leang Karampuang é uma pintura em ocre mineral vermelho descoberta em uma caverna cárstica no sul de Sulawesi, na Indonésia, retratando um javali-verrugoso e três figuras humanas em interação narrativa. O sítio alcançou importância mundial por ser a evidência mais antiga de arte figurativa e narrativa já encontrada no planeta Terra, com idade mínima de 51.200 anos. Sua existência comprova que a capacidade humana de contar histórias através de representações visuais surgiu dezenas de milênios antes do que a ciência acreditava, reescrevendo a história da evolução cognitiva de nossa espécie.
A datação foi alcançada por meio de uma técnica pioneira chamada espectrometria de massa por ablação a laser acoplada à série de urânio (LA-U-series). Em vez de raspar manualmente o pigmento e estragar a obra de arte, os cientistas dispararam pulsos microscópicos de laser para extrair amostras invisíveis a olho nu das microcamadas de carbonato de cálcio que cresceram sobre a tinta. O equipamento mediu a proporção precisa entre o decaimento do isótopo urânio-234 em tório-230, estabelecendo um relógio atômico geológico infalível com margem de erro extremamente reduzida.
Figuras teriantrópicas são representações artísticas que combinam características físicas humanas com partes do corpo de animais, como cabeças de pássaros, garras ou caudas. Na caverna de Leang Karampuang, uma das três figuras humanas apresenta traços zoomórficos distintos, assim como ocorre no sítio vizinho de Leang Bulu' Sipong 4. Esse tipo de manifestação gráfica demonstra que os caçadores-coletores de Sulawesi possuíam uma capacidade avançada de pensamento religioso e xamanismo, concebendo seres mitológicos que não existem no mundo natural concreto.
A cena de arte rupestre descoberta na caverna de Leang Karampuang foi datada em pelo menos 51.200 anos de idade, estabelecendo um novo recorde mundial para a arte figurativa e narrativa da humanidade. Para alcançar essa precisão sem precedentes, os cientistas utilizaram a técnica pioneira de espectrometria de massa por ablação a laser acoplada à série de urânio (LA-U-series). Esse método vaporizou microcamadas microscópicas de carbonato de cálcio formadas sobre o pigmento de ocre vermelho, medindo as proporções exatas de decaimento entre urânio-234 e tório-230 sem destruir a camada artística subjacente.
A pintura em ocre mineral vermelho retrata uma composição narrativa estruturada medindo aproximadamente 136 centímetros de largura por 54 centímetros de altura, dominada por uma representação em escala real de um javali-verrugoso-de-sulawesi (Sus celebensis). Ao redor do animal silvestre com a boca entreaberta, encontram-se três figuras antropomórficas menores que interagem ativamente com a fera em diferentes posições espaciais. Uma das figuras humanas parece segurar um objeto alongado apontado para o focinho do porco, enquanto outra paira diretamente sobre o dorso e uma terceira exibe traços teriantrópicos com cabeça de ave.
Durante mais de um século, manuais de arqueologia sustentaram que a chamada explosão criativa da mente humana e a capacidade de contar histórias por imagens teriam surgido na Europa da Idade do Gelo, entre 35.000 e 40.000 anos atrás, em cavernas como Chauvet e Lascaux. A datação de Leang Karampuang prova que caçadores-coletores modernos na Ásia Insular já dominavam o pensamento simbólico complexo, o folclore visual e a narrativa mítica pelo menos 15.000 anos antes dos primeiros registros figurativos europeus. O achado demonstra que a linguagem artística narrativa viajou com as primeiras populações de Homo sapiens que colonizaram a Australásia há mais de 50.000 anos.

Receba novidades!

Cadastre seu email e receba as melhores curiosidades toda semana.

🔒 Sem spam. Cancele quando quiser.

💬 Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar! 👋

📚Artigos Relacionados

O Mais Antigo Observatório Solar Fora dos Maias: INAH Confirma Complexo de 2.500 Anos em Tetelihtichistoria

O Mais Antigo Observatório Solar Fora dos Maias: INAH Confirma Complexo de 2.500 Anos em Tetelihtic

Dossiê investigativo sobre a confirmação do INAH de um observatório solar do tipo Grupo E com 2.500 anos em Puebla, o mais antigo fora da área maia.

⏱️14 minLer mais →
A Mais Antiga Moradia das Américas: Estudo na Science Revela Acampamento de 13.800 Anos e Primeiros Cães no Alascahistoria

A Mais Antiga Moradia das Américas: Estudo na Science Revela Acampamento de 13.800 Anos e Primeiros Cães no Alasca

Dossiê investigativo sobre o estudo na revista Science Advances que desenterrou em Shég′ Xdaltth′í′, no Alasca, a mais antiga estrutura residencial das Américas, agulhas de costura do Pleistoceno e os

⏱️8 minLer mais →
O 'Santo Graal dos Naufrágios' a 600 Metros: Robô Submarino Resgata Ouro de 1707, Canhão de Bronze e Porcelana Chinesa do Galeão San Joséhistoria

O 'Santo Graal dos Naufrágios' a 600 Metros: Robô Submarino Resgata Ouro de 1707, Canhão de Bronze e Porcelana Chinesa do Galeão San José

Dossiê investigativo sobre a expedição robótica ao Galeão San José a 600 metros no Caribe colombiano, o estudo na revista Antiquity sobre as moedas macuquinas de 1707 e o resgate do primeiro canhão de

⏱️13 minLer mais →
A Tumba Perdida do Faraó Tutmés II em Luxor: A Primeira Descoberta Real Após Tutancâmon e o Enigma da Segunda Câmarahistoria

A Tumba Perdida do Faraó Tutmés II em Luxor: A Primeira Descoberta Real Após Tutancâmon e o Enigma da Segunda Câmara

Dossiê investigativo sobre a descoberta da Tumba C4 do faraó Tutmés II em Luxor pela Universidade de Cambridge e pelo Ministério de Antiguidades do Egito, a primeira tumba real faraônica achada desde

⏱️15 minLer mais →
O Palácio de Madeira de 9 Câmaras sob a Terra: Arqueólogos Abrem a Maior Tumba Real de Chu em 2.200 Anoshistoria

O Palácio de Madeira de 9 Câmaras sob a Terra: Arqueólogos Abrem a Maior Tumba Real de Chu em 2.200 Anos

Escavação da tumba de Wuwangdun em Huainan revela colossal palácio subterrâneo de madeira com 9 câmaras, caldeirão de bronze de 88 cm e instrumentos musicais de 2 metros pertencentes ao Rei Kaolie de

⏱️14 minLer mais →
O Pergaminho de Prata sob o Queixo do Esqueleto: Raios X Desenrolam Inscrição Cristã de 1.800 Anos que Reescreve a História na Alemanhahistoria

O Pergaminho de Prata sob o Queixo do Esqueleto: Raios X Desenrolam Inscrição Cristã de 1.800 Anos que Reescreve a História na Alemanha

Tomografia computadorizada no centro LEIZA desenrola digitalmente uma lâmina de prata de 3,5 cm achada sob o queixo de um esqueleto romano em Frankfurt e revela 18 linhas em latim do século III que re

⏱️23 minLer mais →
Receba novidades no WhatsApp!