O post original no Twitter/X acumulou 2,3 milhões de curtidas em 48 horas.
Quando Duterte comparou-se a Hitler em 2016, causou escândalo global. Em 2026, a internet inverteu o meme:
Hitler em meme histórico: "Então você está me dizendo que esse cara se comparou a mim E acabou em um tribunal de crimes contra a humanidade? Respeito."
A piada é macabra — e o disclaimer "é sátira, não glorificação" foi adicionado compulsoriamente em todos os reshares — mas a inversão da lógica original era irresistível para os criadores de memes.
Quando circularam informações sobre as condições do Centro de Detenção de Scheveningen — cela individual, alimentação adequada, biblioteca, exercício físico — a comparação com as cadeias lotadas das Filipinas gerou onda própria de conteúdo.
"Duterte jogou milhares de suspeitos (sem processo) em cadeias filipinas superlotadas. Duterte foi colocado (com processo) em cela individual com biblioteca e exercício físico em Haia. Moral da história: crime compensa, mas só para o presidente."
Outro formato: "Viciados filipinos presos sem processo: colchão no chão de cela com 50 pessoas. Duterte preso com processo: quarto individual, biblioteca, exercício. A justiça é poética às vezes."
A ironia de um homem que dizia que criminosos não precisam de advogados tendo uma equipe inteira de defesa no TPI gerou seu próprio subgênero:
"Duterte para seus advogados do TPI: 'Preciso que vocês me defendam com todos os recursos legais disponíveis.' / Advogados: 'Mas senhor, o senhor disse que—' / Duterte: 'Esqueçam o que eu disse. Isso é diferente. Eu sou importante.'"
Quando saiu a notícia de que o TPI rejeitou a apelação de Duterte sobre jurisdição, a internet foi implacável:
"Duterte: 'O TPI não tem jurisdição sobre mim!' / TPI: 'Sim, temos.' / Duterte: 'Mas nós saímos do tratado!' / TPI: 'Não funciona assim.' / Duterte: 'É perseguição política!' / TPI: 'Apresente sua defesa no julgamento.' / Duterte: invoca todos os direitos processuais que negou a 12.000 pessoas"
O mais sombrio — e o mais compartilhado por ativistas de direitos humanos:
"Família de vítima da guerra às drogas de Duterte: 'Você vai ter processo, advogado, presunção de inocência, direito de apelar.' / Duterte: 'Sim, tenho direitos.' / Família: 'Nosso familiar não tinha nenhum desses quando você matou.'"
Esse formato estava mais no território da crítica política do que do humor, mas o compartilhamento foi massivo — especialmente nas comunidades filipinas das diásporas ao redor do mundo.
As reações nas Filipinas ao julgamento confirmado e aos memes que o seguiram foram tão divididas quanto a própria nação.
Nas comunidades das vítimas: Organizações de famílias de vítimas da guerra às drogas — grupos como RISE UP (Rise Up for Life and for Rights) e CBCP (Conferência Episcopal Católica das Filipinas) — compartilharam os memes com mistura de alívio, tristeza e amargura. "Preferíamos que nossos filhos estivessem vivos e Duterte livre do que nossos filhos mortos e Duterte em julgamento", disse uma mãe ao jornal Philippine Daily Inquirer. "Mas se isso é o que a justiça oferece, aceitamos."
Entre apoiadores de Duterte: A reação foi previsível: os memes foram acusados de "insultar um patriota", o processo foi chamado de "teatro ocidental para destruir o orgulho asiático", e Duterte continuou sendo retratado como o único político honesto das Filipinas. Grupos nas redes sociais filipinas criaram contra-memes defendendo a guerra às drogas e atacando o TPI como "parcial".
Na diaspora filipina global: As comunidades filipinas no exterior — nos EUA, Canadá, Austrália, Arábia Saudita, Itália — foram palco dos debates mais intensos. Muitos filipinos no exterior viram, em primeira mão, como a violência da guerra às drogas afetou famílias que conhecem. Ao mesmo tempo, Duterte tinha popularidade real entre filipinos emigrantes que viam o crime como problema grave nas Filipinas.
Seria fácil — e incorreto — descartar os memes de Duterte como mero entretenimento. Eles são algo mais: uma forma de processar coletivamente um momento histórico onde a máquina de impunidade que protegia poderosos durante décadas falhou.
A ironia que alimenta esses memes não é apenas engraçada. É política. É uma declaração de que as vítimas enxergam a contradição entre o que Duterte pregava e o que ele agora exige para si mesmo — e que não vão deixar esse contraste passar sem marcá-lo.
Humor é como sociedades digerem o indigesto. Quando um ex-presidente que ordenou milhares de mortes extrajudiciais finalmente enfrenta um processo, a mistura de alívio, cinismo e ironia é difícil de expressar em linguagem formal. Os memes expressam exatamente isso: a perfeição cruel de ver alguém que aboliu o processo para seus inimigos tendo que invocar o processo para si mesmo.
A internet não cria justiça. Mas às vezes documenta a ironia quando a justiça — lenta, imperfeita, insuficiente — finalmente chega.
Os memes celebram um momento, mas o processo no TPI é uma maratona, não uma corrida de 100 metros. Poderá levar anos. Duterte tem 81 anos e alega diversas condições médicas. É possível — e alguns suspeitam provável — que ele morra antes que o julgamento seja concluído.
Se isso acontecer, os apoiadores dirão que foi "perseguição vã". Os críticos dirão que mesmo assim a confirmação das acusações pelo TPI já estabeleceu um registro histórico do que aconteceu.
E a internet? A internet, provavelmente, fará memes sobre isso também.