Em março de 2026, o Brasil alcançou um marco histórico na aviação militar: a apresentação do primeiro caça supersônico F-39 Gripen montado inteiramente em solo brasileiro, na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto, no interior de São Paulo. Este evento não é apenas um feito tecnológico — é a materialização de décadas de investimento, diplomacia e visão estratégica que colocam o Brasil no seleto grupo de países capazes de produzir aeronaves de combate de última geração.
Neste artigo completo, vamos explorar a história do programa FX-2, as capacidades técnicas impressionantes do Gripen E/F, a parceria estratégica entre Saab e Embraer, o impacto na defesa nacional e o que isso significa para o futuro tecnológico do Brasil.
A História: Do Programa FX-2 ao F-39
A Necessidade de Modernização
A Força Aérea Brasileira (FAB) operou durante décadas com caças cada vez mais obsoletos. Os Mirage 2000, adquiridos da França nos anos 2000, já estavam em fim de vida útil, e os veteranos F-5 Tiger II — recebidos dos Estados Unidos nos anos 1970 — haviam ultrapassado qualquer expectativa razoável de operação. O Brasil, com a quinta maior extensão territorial do mundo e uma fronteira de mais de 16.000 quilômetros, precisava urgentemente de uma nova espinha dorsal para sua defesa aérea.
O programa FX-2 (Fighter eXperimental 2) foi lançado oficialmente em 2008 com o objetivo de selecionar o novo caça multirole da FAB. A competição envolveu três gigantes da indústria aeronáutica mundial, cada uma oferecendo sua melhor tecnologia disponível:
| Fabricante | Aeronave | País de Origem |
|---|---|---|
| Boeing | F/A-18E/F Super Hornet | Estados Unidos |
| Dassault Aviation | Rafale | França |
| Saab | Gripen NG (Nova Geração) | Suécia |
A Escolha da Suécia
Em dezembro de 2013, após anos de avaliações técnicas, negociações políticas e análises de custo-benefício, o governo brasileiro anunciou a escolha do Gripen NG da Saab como vencedor do programa FX-2. A decisão surpreendeu muitos analistas que apostavam no Rafale francês, favorito político por anos.
Os fatores decisivos foram claros e pragmáticos: transferência total de tecnologia, custo de ciclo de vida significativamente menor, e a disposição da Saab em compartilhar conhecimentos que permitiriam ao Brasil não apenas montar, mas efetivamente compreender e eventualmente desenvolver tecnologia aeronáutica de combate própria. Foi um contrato de R$ 36 bilhões (à época) para 36 aeronaves — 28 monoplace (Gripen E) e 8 biplace (Gripen F).

As Capacidades do F-39 Gripen: Um Monstro Tecnológico
O F-39 Gripen E/F não é apenas um caça — é uma plataforma de combate multirole de 4.5ª geração que concentra algumas das tecnologias mais avançadas da aviação militar contemporânea.
Especificações Técnicas Impressionantes
| Característica | Especificação |
|---|---|
| Velocidade máxima | Mach 2 (2.450 km/h) — o dobro da velocidade do som |
| Teto operacional | 16.000 metros (52.500 pés) |
| Alcance | 3.200 km com tanques externos |
| Motor | General Electric F414G — 98 kN de empuxo com pós-combustor |
| Peso máximo de decolagem | 16.500 kg |
| Pontos de armas | 10 (incluindo ponta de asa) |
| Radar | Selex ES-05 Raven AESA — rastreamento simultâneo de múltiplos alvos |
| IRST | Skyward-G — detector infravermelho passivo |
| Guerra eletrônica | Suite integrada Arexis — jamming, alerta radar e autodefesa |
O Radar AESA: Olhos que Veem Tudo
O radar ES-05 Raven é um radar de varredura eletrônica ativa (AESA) — o mesmo tipo de tecnologia utilizada nos caças F-35 e F-22 americanos. Diferente dos radares mecânicos tradicionais, o AESA utiliza centenas de módulos transmissores/receptores independentes que podem rastrear dezenas de alvos simultaneamente em diferentes frequências, tornando praticamente impossível para o inimigo realizar contramedidas eletrônicas eficazes.
Na prática, isso significa que o piloto do Gripen tem uma capacidade de consciência situacional incomparável — ele pode detectar, classificar e engajar múltiplas ameaças aéreas e terrestres ao mesmo tempo, em condições climáticas adversas e em ambientes de guerra eletrônica intensa.
Sistema de Fusão de Dados
O que verdadeiramente diferencia o Gripen E de seus concorrentes é o sistema de fusão de dados. Todas as informações dos sensores — radar, IRST, alerta radar, datalink — são processadas e apresentadas ao piloto em uma interface unificada de extrema clareza. O computador de missão correlaciona automaticamente os dados de múltiplas fontes, eliminando redundâncias e criando um "quadro tático" completo.
Armamento Diversificado
O Gripen E pode carregar uma impressionante variedade de armamentos produzidos por diferentes países:
- Mísseis ar-ar: AIM-120 AMRAAM (EUA), IRIS-T (Alemanha), Meteor (Europa) — este último com alcance superior a 100 km
- Mísseis ar-superfície: RBS-15F (Suécia), KEPD 350 (Alemanha)
- Bombas guiadas: GBU-12 Paveway II, GBU-49, bombas JDAM
- Mísseis antinavio: compatível com diversos sistemas
- Armas brasileiras: integração prevista com o míssil A-Darter, desenvolvido em parceria Brasil-África do Sul

A Parceria Saab-Embraer: Muito Além da Montagem
Transferência de Tecnologia Real
A grande diferença do contrato brasileiro com a Saab em relação a compras militares tradicionais é a transferência real e substancial de tecnologia. Não se trata de montar peças pré-fabricadas — a Embraer e um ecossistema de mais de 60 empresas brasileiras estão efetivamente aprendendo e participando do desenvolvimento de tecnologia aeronáutica de ponta.
O Gripen Design and Development Network (GDDN), instalado em Gavião Peixoto, é um centro de engenharia onde engenheiros brasileiros trabalham lado a lado com engenheiros suecos em todas as disciplinas: aerodinâmica, sistemas embarcados, aviônica de missão, integração de armas e testes em voo.
O Que o Brasil Está Aprendendo
A transferência de tecnologia do programa Gripen abrange áreas críticas que terão impacto muito além da aviação militar:
- Projeto e certificação de aeronaves militares: pela primeira vez, engenheiros brasileiros participam do ciclo completo de desenvolvimento de um caça
- Sistemas embarcados críticos: software de missão, fusão de sensores, guerra eletrônica
- Materiais compósitos avançados: fibra de carbono e materiais estruturais de alta resistência
- Integração de armas: processo complexo que envolve simulação, ensaios e certificação
- Testes em voo: metodologias de ensaio e certificação militar
Impacto Industrial
Mais de 60 empresas brasileiras participam da cadeia produtiva do Gripen, desde fabricantes de componentes estruturais até desenvolvedores de software. A Embraer, já uma potência global em aviação comercial e executiva, está consolidando capacidades que a posicionam como um player na aviação militar mundial.
O Gripen na FAB: Operação e Defesa Aérea
Base Aérea de Anápolis
Os caças F-39 Gripen estão sediados na Base Aérea de Anápolis (BAAN), em Goiás — localizada estrategicamente no centro do país. A partir de Anápolis, os Gripen podem alcançar qualquer ponto do território brasileiro em questão de minutos em velocidade supersônica.
A FAB já conta com dez caças Gripen operacionais, utilizados em missões de Alerta de Defesa Aérea, que incluem a proteção do espaço aéreo de Brasília e a interceptação de aeronaves não identificadas ou ilegais — particularmente na região amazônica, onde o tráfico aéreo de drogas ainda representa uma ameaça constante.
Cronograma de Entregas
O cronograma de entrega dos 36 caças sofreu ajustes ao longo dos anos, refletindo tanto a complexidade do programa quanto desafios orçamentários:
| Ano | Entregas Previstas | Observação |
|---|---|---|
| 2020-2025 | 10 aeronaves | Produzidas na Suécia |
| 2026 | 1 aeronave | Primeiro montado no Brasil |
| 2027-2032 | 25 aeronaves | Montagem brasileira em Gavião Peixoto |
A previsão de conclusão do lote completo de 36 caças é 2032. Em 2026, apenas um caça será entregue — o primeiro totalmente montado em solo brasileiro, evento que marca a maturidade da linha de produção nacional.

Comparação com Outros Caças do Mundo
Como o F-39 Gripen se compara aos seus concorrentes diretos e aos caças mais avançados do mundo?
Gripen E vs. Concorrentes
| Aeronave | Geração | Velocidade | Radar | Custo/hora de voo |
|---|---|---|---|---|
| F-39 Gripen E | 4.5 | Mach 2 | AESA | ~US$ 4.700 |
| F-16 Viper (EUA) | 4.5 | Mach 2 | AESA | ~US$ 8.000 |
| Rafale (França) | 4.5 | Mach 1.8 | AESA | ~US$ 16.500 |
| F-35A (EUA) | 5 | Mach 1.6 | AESA | ~US$ 36.000 |
| Su-35 (Rússia) | 4++ | Mach 2.25 | PESA | ~US$ 11.000 |
O Gripen E se destaca pelo custo operacional extraordinariamente baixo — menos da metade do F-16 e uma fração do F-35. Isso significa que a FAB pode voar mais horas de treinamento, realizar mais missões e manter a frota operacional por custos que cabem no orçamento de defesa brasileiro.
A Filosofia "Smart Fighter"
A Saab desenvolveu o Gripen com uma filosofia que eles chamam de "Smart Fighter" — um caça que maximiza a eficácia de combate com o menor custo possível. Isso inclui um design que permite manutenção rápida em campo (o motor pode ser substituído em menos de uma hora), capacidade de operar a partir de estradas e pistas curtas, e um sistema de apoio logístico extremamente enxuto.
O Impacto Estratégico para o Brasil
Defesa da Amazônia
A Amazônia brasileira, com seus 5,5 milhões de km² de floresta tropical, representa um dos maiores desafios de vigilância e defesa do mundo. O narcotráfico aéreo, o garimpo ilegal e as ameaças à soberania territorial exigem capacidade de resposta rápida e eficaz. Com os Gripen operando a partir de Anápolis e potencialmente de bases avançadas na região Norte, o Brasil ganha uma capacidade de projeção de poder que não possuía desde a aposentadoria dos Mirage.
Soberania Tecnológica
Mais do que aviões, o programa Gripen está construindo soberania tecnológica. O conhecimento adquirido pelos engenheiros brasileiros no programa será fundamental para futuros projetos de defesa, incluindo o desenvolvimento potencial de um caça de 5ª geração nacional — um projeto que ainda é especulativo, mas que se torna tecnicamente viável graças à base de conhecimento criada pelo programa FX-2.
Posicionamento Geopolítico
Em um mundo cada vez mais polarizado, onde gastos militares estão em alta histórica, o Brasil se posiciona como uma potência militar regional que não depende exclusivamente de fornecedores americanos ou russos. A parceria com a Suécia — um país neutro, membro da OTAN desde 2024 — oferece ao Brasil flexibilidade estratégica e independência que poucos países em desenvolvimento possuem.

Conclusão: Um Novo Capítulo para o Brasil
O F-39 Gripen montado no Brasil não é apenas um caça supersônico — é o símbolo de uma nação que decidiu investir em seu próprio futuro tecnológico. Em um momento em que o mundo vive tensões geopolíticas crescentes, ter a capacidade de construir e manter aeronaves de combate de última geração é mais do que um luxo — é uma necessidade estratégica.
O caminho até aqui não foi fácil. Foram mais de uma década de negociações, investimentos bilionários e superação de desafios técnicos e políticos. Mas o resultado está aí: engenheiros brasileiros montando caças supersônicos em solo nacional, aprendendo tecnologias que poucos países dominam, e construindo uma base industrial de defesa que servirá o país por gerações.
O programa Gripen demonstra que transferência de tecnologia real é possível quando há vontade política e parceiros dispostos a compartilhar conhecimento. Para o cidadão brasileiro, isso significa mais segurança nas fronteiras, mais empregos qualificados na indústria de defesa, e a certeza de que o país caminha em direção à autonomia tecnológica em uma das áreas mais estratégicas da engenharia moderna.
O primeiro Gripen montado no Brasil é apenas o começo. Nos próximos seis anos, mais 25 aeronaves sairão da linha de produção de Gavião Peixoto, consolidando o Brasil como membro do seleto clube de nações capazes de produzir caças supersônicos. E quem sabe, no futuro, o próximo caça da FAB não será mais montado — será inteiramente projetado e construído por mãos brasileiras.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O Gripen é melhor que o F-35?
São aeronaves de categorias diferentes. O F-35 é um caça de 5ª geração com capacidade stealth (furtivo), enquanto o Gripen E é de 4.5ª geração sem stealth nativo. No entanto, o Gripen custa uma fração do F-35 — tanto na aquisição quanto na operação diária. Para as necessidades da FAB, que incluem patrulha fronteiriça, interceptação e defesa aérea em um cenário de ameaça moderada, o Gripen oferece um equilíbrio ideal entre capacidade e custo. Países que operam o F-35 frequentemente mantêm caças como o Gripen como complemento justamente por seu menor custo operacional.
O Brasil pode exportar o Gripen?
O contrato permite que o Brasil participe da cadeia de exportação do Gripen para outros países. Alguns países da América Latina e da África já demonstraram interesse, e a Embraer poderia atuar como parceira na fabricação de componentes para aeronaves vendidas globalmente. No entanto, qualquer exportação depende de aprovação da Suécia, detentora da propriedade intelectual principal.
Quanto custa cada Gripen?
O valor unitário estimado é de aproximadamente US$ 85 milhões por aeronave na configuração adquirida pela FAB. Este valor inclui não apenas a aeronave, mas também pacotes de armamento, suporte logístico, treinamento de pilotos e manutenção inicial. Para comparação, um F-35A custa aproximadamente US$ 80 milhões na versão mais recente — porém seu custo operacional por hora de voo é quase oito vezes maior que o do Gripen.
Os Gripen já entraram em combate?
O Gripen da FAB nunca foi utilizado em combate real. No entanto, versões anteriores do Gripen (C/D) são operadas pela Força Aérea da Suécia, Hungria, República Tcheca, Tailândia e África do Sul. A Suécia mantém o Gripen como espinha dorsal de sua defesa aérea, o que é significativo considerando que faz fronteira com a Rússia (via Finlândia) e recentemente aderiu à OTAN.
O que acontece após 2032?
Após a entrega de todas as 36 aeronaves previstas, o Brasil passará a focar na manutenção, modernização e potencialmente na co-participação em futuros projetos. A Saab já trabalha no conceito do Gripen de próxima geração. O conhecimento acumulado pelos engenheiros brasileiros os posiciona como potenciais parceiros em desenvolvimentos futuros — seja uma versão avançada do Gripen ou até mesmo um projeto autônomo de aeronave de combate.
O Futuro da Aviação Militar Brasileira
O programa Gripen não existe isoladamente. Ele se insere em uma estratégia mais ampla de modernização das Forças Armadas brasileiras que inclui o submarino nuclear (programa PROSUB da Marinha), o blindado Guarani (programa VBTP do Exército) e o sistema de monitoramento por satélite SGDC.
A experiência adquirida com o Gripen já influencia outros projetos da Embraer, incluindo o desenvolvimento do avião cargueiro militar KC-390 Millennium — outra aeronave que está conquistando mercados internacionais. A empresa já vendeu unidades para Portugal, Hungria e Países Baixos, demonstrando que a capacidade industrial de defesa brasileira tem credibilidade no mercado global.
Para especialistas em defesa, o verdadeiro teste virá na próxima década, quando o Brasil terá que decidir se investe em um caça de 5ª geração próprio ou busca uma nova parceria internacional. A base de conhecimento construída pelo programa Gripen será fundamental para tomar essa decisão de forma informada — algo que seria impossível uma década atrás.
O Brasil ainda enfrenta desafios significativos: orçamento de defesa limitado em comparação com potências militares globais, burocracia nos processos de aquisição, e a eterna tensão entre prioridades sociais e gastos militares. Mas com o F-39 Gripen voando sobre os céus nacionais e sendo montado em solo brasileiro, o país provou que é capaz de almejar e alcançar o mais alto nível de excelência tecnológica quando há visão de longo prazo e determinação política.
Vale ressaltar que o investimento em defesa tem retorno direto para a economia civil. As tecnologias desenvolvidas para o programa Gripen — materiais compósitos avançados, software de alta confiabilidade, sistemas de navegação de precisão — encontram aplicação em setores como aviação comercial, telecomunicações, medicina e até agricultura de precisão. A Embraer, por exemplo, já aplica conhecimentos adquiridos no programa militar em seus jatos comerciais e executivos, aumentando a competitividade da empresa no mercado global.
O impacto nos recursos humanos é igualmente relevante. Mais de 350 engenheiros brasileiros já passaram por programas de treinamento na Suécia, retornando com conhecimentos que são multiplicados nas universidades e centros de pesquisa nacionais. Institutos como o ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e a própria Embraer mantêm programas de pós-graduação diretamente relacionados às tecnologias do Gripen, formando uma nova geração de engenheiros aeronáuticos capazes de competir em nível internacional.
Para o futuro, especialistas apontam que o Brasil precisará tomar decisões estratégicas cruciais: ampliar o lote de Gripen além das 36 unidades iniciais, investir em um caça de 5ª geração próprio, ou desenvolver sistemas não-tripulados (drones de combate) que complementem a frota tripulada. Qualquer que seja o caminho escolhido, a base tecnológica e industrial construída pelo programa F-39 Gripen será o alicerce sobre o qual o futuro da defesa aérea brasileira será erguido.
Fontes e Referências

- Força Aérea Brasileira (FAB) — Programa F-39 Gripen
- Aeroin — Gripen montado no Brasil em 2026
- O Tempo — F-39 Gripen: primeiro caça supersônico brasileiro
- Metrópoles — Gripen em missões de defesa aérea
- UOL — FAB e os caças Gripen
- Saab — Programa Gripen Brasil
- Airway — Timeline do programa FX-2
- Click Petróleo e Gás — Gripen na indústria brasileira
Última atualização: 10 de março de 2026





