Existe um tipo de conteúdo que atravessa qualquer bolha — religiosa, cética, política, cultural. Ele aparece em grupo de família, vira trend em Reels, volta em ondas no YouTube e sempre dá o mesmo resultado: milhares de comentários misturando choro, raiva e discussão.
O nome disso é simples: cartas psicografadas.
Para alguns, são mensagens de consolo. Para outros, são exploração da dor. E, para muita gente, viraram algo ainda mais perigoso: um produto vendável, com "prazo de entrega", "pacotes", "taxa extra" e promessas que deixam qualquer pessoa enlutada vulnerável.
Só que a história muda de nível quando o tema sai do feed e entra no tribunal.
Em novembro de 2025, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) publicou uma decisão que colocou um "freio" jurídico no assunto: carta psicografada não pode ser usada como prova judicial.
E se a Justiça diz que isso não pode virar prova… por que tanta gente trata como "verdade absoluta" nas redes?
É isso que vamos investigar aqui — sem desrespeitar fé, sem debochar de dor, mas também sem fingir que não existe oportunismo.
O Que São Cartas Psicografadas e Por Que Mexem Tanto
"Psicografia" é o termo usado, sobretudo no espiritismo e em práticas mediúnicas, para descrever textos que seriam "ditados" por espíritos e escritos por médiuns. Para quem acredita, é uma ponte. Para quem não acredita, é uma produção humana — consciente ou inconsciente.
Mas tem um ponto que independe do que você crê: uma carta psicografada sempre opera no lugar mais sensível da experiência humana — a saudade, a culpa, a pergunta que nunca se responde, o "e se…".
E é por isso que o tema viraliza com tanta facilidade.
Ele oferece:
- Fechamento emocional rápido
- Narrativa pronta (com começo, meio e fim)
- Sensação de presença
- Um tipo de alívio que parece imediato
Só que a internet transformou esse alívio em combustível de engajamento. E engajamento, você sabe: vira dinheiro.
O Estopim: A Carta Psicografada no Júri da Boate Kiss
O Brasil já tinha visto polêmicas mediúnicas antes. Mas um episódio recente foi tão forte que virou divisor de águas.
No júri do caso da Boate Kiss (tragédia que matou 242 pessoas em Santa Maria, RS), a defesa de um réu apresentou uma suposta carta psicografada atribuída a uma das vítimas, durante os debates. Isso gerou repercussão enorme, indignação pública e um debate que atravessou mídia, direito e redes sociais.
O choque aconteceu por um motivo óbvio: quando a "voz" é atribuída a quem morreu, o peso moral parece gigantesco. Só que, ao mesmo tempo, surge a pergunta que não dá pra evitar:
Quem valida essa voz?
E mais: em ambiente de júri, com pessoas comuns decidindo, o risco de influência emocional vira um tema central — e isso aparece explicitamente na discussão do STJ depois.
O Que o STJ Decidiu e Por Que Isso Muda o Jogo (2025)
Em 5 de novembro de 2025, a Sexta Turma do STJ publicou decisão determinando que carta psicografada não pode ser aceita como prova e deve ser retirada do processo.
O ponto central foi a falta de "confiabilidade mínima" e o fato de que a psicografia é ato de fé, não um elemento passível de validação racional no modelo de prova.
O STJ também destacou o perigo de elementos irracionais influenciarem jurados — ou seja: não é só "gosto pessoal", é um risco processual real.
Tradução para linguagem do dia a dia:
- Prova precisa ser algo que a outra parte consiga contestar e investigar
- Carta psicografada não permite checagem de autoria no sentido jurídico
- Em júri, o apelo emocional pode distorcer a decisão
E aí vem a pergunta que interessa: se isso é frágil juridicamente, como ficou tão poderoso culturalmente?
O Ciclo da Internet: Quando Celebridades Viram "Mensagens do Além"
Agora entra o território onde o tema vira incêndio de engajamento.
Nos últimos anos, conteúdos apresentados como "cartas psicografadas" atribuídas a pessoas famosas têm reaparecido em ondas. Um caso que voltou a circular em 2025 foi o de Allana Moraes, namorada do cantor Cristiano Araújo (falecido em 2015). Matérias e posts citam uma "suposta carta psicografada atribuída a Allana" e destacam repercussão entre fãs.
Outro ciclo recente envolve cartas atribuídas a MC Kevin, com postagens de familiares e ampla circulação em colunas e portais.
Aqui, duas coisas acontecem ao mesmo tempo:
- O conteúdo serve como "ritual público" de saudade
- O ambiente digital cria um mercado onde todo ritual pode ser monetizado
E é nessa rachadura que entra o problema mais perigoso: a exploração do luto.
A Parte Que Quase Ninguém Quer Encarar: Fraude no Luto
Em janeiro de 2026, uma nova onda de atenção surgiu com denúncias sobre sites que vendem cartas psicografadas oferecendo "pacotes" e "prazo de entrega". Esse tema circulou em posts de redes sociais e em matérias que mencionam valores, upsells e queixas.
Mesmo quando o assunto aparece em fontes diferentes, o padrão é parecido:
- Você escolhe o "médium" num catálogo
- Escolhe "prazo" e "tipo" de carta
- Paga
- E recebe (ou não recebe) algo que pode ser genérico
Por que isso é tão grave? Porque luto é vulnerabilidade. E vulnerabilidade é alvo preferido de fraude.
Um sinal importante: dentro de tradições espíritas mais conhecidas, existe forte reprovação a "cobrança por mediunidade". O debate aparece em reações públicas ao tema.
Checklist: 12 Sinais de Alerta de Golpe
Se você quer se proteger ou alertar alguém, essa lista é essencial:
⚠️ Sinais de Alerta:
- Promessa de garantia ("vai receber com certeza")
- Prazo de entrega (luto não é delivery)
- Pacotes e adicionais ("áudio extra", "carta premium", "taxa de urgência")
- Pedido de dados íntimos demais (fotos, histórias detalhadas — isso permite texto "sob medida")
- Texto genérico (frases universais que servem pra qualquer família)
- Pressão emocional ("se você ama, faça")
- Depoimentos perfeitos demais (parecem script)
- Pagamento por intermediários obscuros
- Canais que reaparecem toda semana com "novas cartas bombásticas"
- Mistura de acusação + carta (tentativa de "resolver caso" com emoção)
- Uso para atacar alguém (carta vira arma)
- Ausência total de transparência (quem é a pessoa, como atua, qual comunidade)
Isso não "prova" que tudo é fraude. Mas reduz muito a chance de você cair em armadilha.
"Mas e Se For Verdade?" — O Ponto Mais Delicado
Aqui é onde a maioria dos textos erra: ou zomba de quem acredita, ou afirma como se fosse ciência.
O caminho mais forte é outro:
- Reconhecer que há pessoas que relatam conforto real
- E, ao mesmo tempo, separar conforto de prova
Uma análise crítica sobre psicografia no tribunal explica por que esse tipo de conteúdo não se sustenta como prova e como a hipótese não é testável de modo que sirva ao modelo jurídico de evidência.
Isso te dá um tom "investigação madura":
"Não é sobre atacar a fé. É sobre impedir que a emoção vire ferramenta de manipulação."
Por Que Esse Tema Disputa Atenção do Eleitor
Em época de eleição, a batalha real não é só proposta — é atenção. E atenção é movida por:
- Medo
- Indignação
- Choque
- Emoção
Cartas psicografadas "em casos famosos" são perfeitas para esse motor, porque:
- Geram debate moral imediato ("respeita a dor" vs "isso é golpe")
- Criam conflito e comentários
- Colocam "justiça" no centro do assunto (especialmente após a decisão do STJ)
Ou seja: esse tema vira um espelho do Brasil. Um país onde a fé é forte, o luto é coletivo, e o digital às vezes transforma dor em produto.
Casos de Maior Repercussão
Grupo A — Tribunal e Ruptura Social
- Boate Kiss (júri e polêmica da carta)
- Decisão do STJ (2025) proibindo como prova
Grupo B — Celebridades e Ondas de Viral
- Cristiano Araújo / Allana Moraes (suposta carta)
- MC Kevin (carta compartilhada e repercussão)
Grupo C — Denúncias e Exploração do Luto
- Venda de cartas e suspeitas/queixas (jan/2026)
Conclusão: A Pergunta Que Separa Consciência de Manipulação
Se existe uma regra simples para navegar nesse tema, é esta:
Se a mensagem pede que você pare de pensar e só sinta, acenda o alerta.
Porque consolo não precisa de urgência, não precisa de pacote, não precisa de upsell, e não precisa virar arma em tribunal ou na internet.
E, depois do que o STJ fixou, a lição pública fica ainda mais clara: fé é íntima — mas prova e verdade pública exigem critérios.
Perguntas Frequentes
Carta psicografada pode ser usada como prova judicial?
Não. O STJ decidiu em 2025 que não pode ser admitida como prova e determinou retirada do processo.
Por que o caso da Boate Kiss virou marco?
Porque uma suposta carta foi apresentada no júri, gerando forte repercussão e debate sobre influência emocional em decisões judiciais.
Como identificar golpe envolvendo cartas psicografadas?
Desconfie de promessa, prazo de entrega, "pacotes", cobranças extras e pressão emocional. Use o checklist de 12 sinais deste artigo.
Existem casos famosos que viralizaram?
Sim, há ondas recorrentes com cartas atribuídas a celebridades como Cristiano Araújo/Allana Moraes e MC Kevin.
O espiritismo cobra por psicografia?
Tradições espíritas mais conhecidas reprovam cobrança por mediunidade. Sites que vendem "cartas com prazo" não representam essas tradições.


