A Unidos do Viradouro fez algo raro e emocionante: homenageou em vida seu próprio Mestre Ciça, lendário mestre de bateria com 70 anos de idade e 55 anos de desfiles. É a primeira vez na história recente que uma escola dedica integralmente seu enredo a um integrante em atividade.
Ciça — Francisco de Assis Honório — é um dos mestres de bateria mais respeitados do Carnaval carioca. Começou a tocar na Viradouro aos 15 anos e nunca parou. Sob sua regência, a bateria da escola ganhou fama pela cadência inconfundível e pela capacidade de fazer o público vibrar.
O desfile teve seu ápice quando Mestre Ciça subiu ao carro alegórico e conduziu a bateria de lá — recriando um momento histórico de 2007 que marcou a memória do Carnaval. O público inteiro se levantou. Juliana Paes, de volta como Rainha de Bateria após 18 anos, completou o quadro.
Homenagear artistas depois que eles se vão é fácil. Homenagear em vida — com a pessoa presente, desfilando, vivendo o tributo em tempo real — é corajoso e comovente. A Viradouro mostrou que gratidão não precisa esperar.
A Mocidade Independente de Padre Miguel homenageou Rita Lee (1947-2023), a "rainha do rock brasileiro" e uma das artistas mais influentes da música popular brasileira.
- 1967: Rita Lee foi fundadora dos Mutantes, banda que revolucionou o tropicalismo
- 1970s: Carreira solo, com hits como "Ovelha Negra" e "Mania de Você"
- 1980s-90s: "Lança Perfume", "Amor e Rock" — domínio absoluto das paradas
- Ativismo: Defesa intransigente dos direitos dos animais e da liberdade feminina
- Legado: 55 álbuns, 6 prêmios Grammy Latino, 70 milhões de discos vendidos
Antes que o feminismo se tornasse pauta mainstream no Brasil, Rita Lee já vivia seus princípios no palco e fora dele. Nos anos 1970, quando mulheres na música brasileira eram majoritariamente cantoras românticas, Rita subia ao palco com roupas andróginas, letras provocadoras e uma atitude que desafiava todos os padrões de comportamento feminino da época. "Ovelha Negra" (1975) era um hino de rebeldia pessoal que ressoava como manifesto geracional.
Seu álbum "Fruto Proibido" (1975) é considerado um marco do rock brasileiro, com letras que abordavam sexualidade, liberdade e inconformismo. Já "Rita Lee" (1980), com o hit "Lança Perfume", vendeu mais de 800 mil cópias e consolidou sua posição como a artista feminina mais vendida do país. "Bombom" (1983) e "Flagra" (1982) dominaram as rádios e mostraram que uma mulher podia liderar o rock sem pedir licença.
Nos últimos 20 anos de vida, Rita Lee se dedicou intensamente à causa animal. Ela mantinha um santuário com dezenas de animais resgatados em sua propriedade em São Paulo, era vegetariana convicta e usava sua influência para denunciar maus-tratos. Publicou o livro "Amiga Ursa" (2022), uma autobiografia narrada do ponto de vista de sua cadela, e participou ativamente de campanhas contra rodeios, vaquejadas e testes em animais.
Sua frase "Eu prefiro os bichos aos humanos" se tornou emblemática de uma postura que, longe de ser misantropia, era uma crítica à crueldade institucionalizada contra os animais no Brasil.
A escola trouxe Rita Lee como símbolo de liberdade multidimensional: liberdade artística (tropicalismo), liberdade feminina (feminismo), liberdade de pensamento (contracultura) e liberdade dos animais (ativismo). A avenida virou um grande show de rock psicodélico misturado com samba.
O desafio de traduzir o universo do rock para a linguagem do samba-enredo era enorme, mas a Mocidade encontrou o caminho pela via da atitude. O samba-enredo incorporou guitarras distorcidas na introdução — algo inédito — e a bateria alternava entre cadências tradicionais e batidas que remetiam ao rock. A comissão de frente recriou o palco dos Mutantes em 1968, com figurinos psicodélicos e coreografia que misturava dança contemporânea com movimentos do rock. O resultado foi um desfile que honrou Rita Lee sem domesticá-la — mantendo a energia rebelde que definiu sua carreira.
A Unidos da Tijuca fez do Sambódromo uma sala de aula aberta ao homenagear Carolina Maria de Jesus (1914-1977), autora de "Quarto de Despejo" — um dos livros mais importantes da literatura brasileira.
Carolina era negra, mãe solteira, catadora de lixo e moradora da favela do Canindé, em São Paulo. Mesmo nessas condições, ela escrevia diários que documentavam a fome, a miséria e a dignidade das pessoas marginalizadas. "Quarto de Despejo" (1960) vendeu mais de 1 milhão de cópias e foi traduzido para 13 idiomas, incluindo japonês, russo e árabe.
O livro causou impacto internacional porque oferecia algo que a literatura brasileira raramente proporcionava: a voz direta de uma mulher negra e pobre narrando sua própria realidade, sem intermediários intelectuais. Na França, foi comparado ao diário de Anne Frank pela força do testemunho pessoal. Nos Estados Unidos, tornou-se leitura obrigatória em cursos de estudos latino-americanos. No Japão, inspirou pesquisas sobre desigualdade urbana em países em desenvolvimento.
Após décadas de relativo esquecimento, Carolina Maria de Jesus vive um processo de redescoberta. Novas edições de seus livros — incluindo "Casa de Alvenaria" e os inéditos publicados postumamente — têm alcançado novas gerações de leitores. Em 2021, a Companhia das Letras relançou "Quarto de Despejo" com nova capa e prefácio, e o livro voltou às listas de mais vendidos. Universidades brasileiras e estrangeiras incluíram Carolina em seus currículos de literatura, e pesquisadores têm resgatado manuscritos inéditos que revelam uma produção literária muito mais vasta do que se conhecia.
O enredo da Tijuca faz uma distinção crucial: Carolina não era "a favelada que escrevia" — era "uma escritora que foi favelada". Essa inversão semântica é poderosa porque devolve a Carolina sua identidade profissional, historicamente apagada pelo sensacionalismo. A escola dedicou um carro alegórico inteiro a reproduzir páginas do diário de Carolina em escala monumental, com trechos projetados em painéis luminosos que o público podia ler durante a passagem do desfile.
A Acadêmicos do Grande Rio celebrou o Manguebeat, movimento cultural surgido em Recife no início dos anos 1990. Liderado por Chico Science (1966-1997) e a banda Nação Zumbi, o Manguebeat misturou maracatu, coco, embolada e ciranda com rock, hip-hop, funk e música eletrônica.
O Manifesto Mangue (1992), escrito por Fred 04 e Renato L., abria-se com a declaração:
"Recife, quarta pior cidade do mundo para se viver. Mais da metade dos seus habitantes mora em favelas e alagados. Enquanto isso, a lama do mangue fecunda a diversidade."
O movimento nasceu da contradição: uma cidade em crise que, através da cultura, transformou a lama em arte. O álbum "Da Lama ao Caos" (1994) é considerado um dos mais importantes da música brasileira.
O Manguebeat é um tema incomum para o Carnaval — não é samba, não é afro, não é folclore tradicional. É rock pernambucano com raízes populares. Essa ousadia é a marca da Grande Rio, que já homenageou Exu (2022, campeã) e agora investe em outro tema provocador.
O enredo do Salgueiro tem o título mais longo do Carnaval 2026: "A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau". É uma homenagem a Rosa Magalhães (1948-2024), a carnavalesca que mais vezes conduziu escolas ao título.
Rosa Magalhães venceu campeonatos com Imperatriz Leopoldinense, Vila Isabel e Salgueiro. Era conhecida por enredos fantasiosos, alegorias monumentais e uma capacidade única de transformar pesquisa acadêmica em espetáculo popular.
A Imperatriz Leopoldinense celebrou Ney Matogrosso — um dos artistas mais disruptivos da cultura brasileira. O título "Camaleônico" captura sua essência: um artista que se reinventou infinitas vezes, desafiando fronteiras de gênero, estética e comportamento.
De vocalista dos Secos & Molhados (1973) a artista performático contemporâneo, Ney Matogrosso é uma figura que nunca se acomodou. Aos 83 anos, continua fazendo shows e provocando.
A Estação Primeira de Mangueira trouxe a história de Mestre Sacaca (Raimundo dos Santos Souza), curandeiro e xamã do Amapá que é reconhecido como Patrimônio Cultural do estado. O enredo enaltece as tradições afro-indígenas do Norte — uma faceta pouco conhecida do Brasil.
A Portela descentralizou as narrativas afro-brasileiras ao homenagear o Príncipe Custódio — uma figura de origem africana que se estabeleceu em Porto Alegre no final do século XIX e se tornou líder espiritual e cultural da comunidade negra gaúcha. O enredo valoriza a ancestralidade negra no Sul do Brasil, uma região frequentemente esquecida nas discussões sobre cultura afro-brasileira.
Os enredos do Carnaval nunca existem no vácuo — eles refletem, amplificam e questionam o momento social e político do Brasil. Em 2026, a predominância de temas ligados à cultura afro-brasileira, à valorização de artistas mulheres e à recuperação de memórias apagadas não é coincidência: é o reflexo de uma sociedade que debate ativamente questões de representatividade, reparação histórica e justiça social.
Quando a Beija-Flor escolhe o Bembé do Mercado, ela está dialogando com o crescente movimento de valorização das religiões de matriz africana e com a luta contra a intolerância religiosa que ainda persiste no Brasil. Quando a Tijuca homenageia Carolina Maria de Jesus, está respondendo ao debate sobre quem tem direito de narrar a própria história e sobre o apagamento sistemático de intelectuais negros na cultura brasileira.
O Carnaval funciona como um termômetro cultural: os temas que as escolas escolhem revelam quais conversas a sociedade está tendo — ou precisa ter. Em anos de crise política, surgem enredos de protesto. Em momentos de afirmação identitária, aparecem homenagens a figuras históricas marginalizadas. O Carnaval 2026, com sua ênfase em ancestralidade, resistência e reconhecimento, é o retrato de um Brasil que busca acertar contas com seu passado enquanto constrói novas narrativas para o futuro.
Nem sempre os enredos das escolas de samba carregaram o peso político e cultural que vemos hoje. Nas primeiras décadas do Carnaval organizado, entre os anos 1930 e 1960, os enredos eram predominantemente ufanistas — exaltavam a natureza brasileira, datas cívicas, heróis nacionais e episódios da história oficial. Temas como "Brasil, Terra de Riquezas" ou "As Maravilhas do Amazonas" eram comuns e refletiam uma visão idealizada do país.
A virada começou nos anos 1960 e 1970, quando carnavalescos como Joãosinho Trinta e Fernando Pamplona introduziram enredos que questionavam a narrativa oficial. Joãosinho Trinta, com sua célebre frase "o povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual", trouxe para a avenida temas que misturavam opulência visual com crítica social. Seu enredo "Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia" (Beija-Flor, 1989) é considerado um divisor de águas: um Cristo Redentor coberto de lixo que foi censurado pela Igreja Católica e precisou desfilar coberto por um plástico preto com a frase "Mesmo proibido, olhai por nós".
Nos anos 2000, a tendência se consolidou. Escolas passaram a abordar temas como racismo, desigualdade, meio ambiente e direitos humanos com frequência crescente. A Mangueira de 2019, com "História Para Ninar Gente Grande", reescreveu a história do Brasil pelo ponto de vista dos marginalizados — indígenas, negros e mulheres — e venceu o Carnaval com aclamação popular. A Grande Rio de 2022 dedicou seu enredo a Exu, orixá frequentemente demonizado pelo sincretismo religioso, e também foi campeã.
O Carnaval 2026 representa a maturação desse processo. Não se trata mais de um ou dois enredos "ousados" em meio a temas convencionais — a maioria das escolas do Grupo Especial escolheu deliberadamente temas que dialogam com pautas sociais contemporâneas. A avenida se transformou em um espaço de debate público onde milhões de brasileiros são expostos a narrativas que desafiam o senso comum e ampliam horizontes culturais.
Essa evolução não aconteceu sem resistência. Críticos argumentam que o Carnaval deveria ser "apenas festa" e que a politização dos enredos afasta o público. Mas os números contam outra história: os desfiles com enredos socialmente engajados são consistentemente os mais comentados nas redes sociais, os mais assistidos na televisão e os mais premiados pelos jurados. O público, ao que tudo indica, quer ser emocionado e provocado — não apenas entretido.
| Tema |
Escolas |
Tendência |
| Cultura afro-brasileira |
Beija-Flor, Vila Isabel, Tuiuti, Portela, Mangueira |
Protagonismo negro consolidado |
| Homenagem a artistas |
Mocidade (Rita Lee), Imperatriz (Ney), Salgueiro (Rosa) |
Personalidades como símbolos |
| Escritores/intelectuais |
Tijuca (Carolina de Jesus), Vila Isabel (Heitor dos Prazeres) |
Literatura no Sambódromo |
| Movimentos culturais |
Grande Rio (Manguebeat) |
Ousadia temática |
| Homenagem em vida |
Viradouro (Mestre Ciça) |
Gratidão sem esperar |
Última atualização: 17 de fevereiro de 2026
Hercules Gobbi é pesquisador cultural e escritor, apaixonado pela interseção entre arte popular, história e identidade brasileira.