
Com uma extensão estimada em mais de 4.000 quilômetros, o Caminho de Peabiru não era uma trilha simples ou fortuita. Tratava-se de um sistema viário estruturado com cerca de 1,40 metro de largura e rebaixado entre 30 e 50 centímetros em relação ao nível do solo. Em muitos trechos críticos de mata densa ou solo suscetível a erosões, o caminho era forrado com gramíneas específicas (Paspalum notatum) que impediam o crescimento de árvores de grande porte e mantinham a rota desimpedida por séculos.
A rota principal partia de múltiplos pontos no litoral brasileiro — como a Baía de Paranaguá (PR), Cananéia/São Vicente (SP) e a Ilha de Santa Catarina (SC) — e adentrava o interior do continente. Ela bifurcava-se em eixos estratégicos que atravessavam o atual território do Mato Grosso do Sul e do Paraná. Por fim, o traçado cruzava o Paraguai e a Bolívia antes de alcançar a capital do Império Inca em Cusco.

Uma das ramificações mais estratégicas e geograficamente fascinantes do Peabiru cruzava o estado de Mato Grosso do Sul (MS). Historicamente utilizado pelos povos Guarani, Paresi, Terena e pelas confederações dos guerreiros Guaycurus, o ramal sul-mato-grossense do Peabiru era a grande artéria fluvial e terrestre que interligava a bacia do Rio Paraná ao Pantanal sul-americano.
Os principais trechos identificados por arqueólogos e historiadores no MS incluem:
- A Travessia do Rio Paraná (Bataguassu e Três Lagoas): Ponto de entrada no estado para os viajantes vindos do litoral paulista e do norte do Paraná, cruzando o Rio Paraná em passos rasos naturais.
- O Planalto de Maracaju e Campo Grande: A rota seguia pela crista da Serra de Maracaju, passando pelas regiões de Dourados, Sidrolândia, Campo Grande e Corguinho, onde formações rochosas e cavernas com inscrições rupestres marcam antigos pontos de descanso e observação astronômica.
- O Gargalo Histórico de Aquidauana (Serra de Piraputanga e Vale do Paxixi): A descida da serra em direção ao Pantanal.
- O Corredor de Corumbá rumo aos Andes: Alcançando Corumbá e a fronteira com a Bolívia (região de Puerto Suárez e Chiquitos), o caminho adentrava o Chaco boliviano em direção a Potosí e à Cordilheira dos Andes.
O município de Aquidauana, no oeste de Mato Grosso do Sul, desempenhou um papel geográfico crucial no traçado do Peabiru. Situado estrategicamente na transição entre o planalto da Serra de Maracaju e as planícies alagáveis do Pantanal, o território de Aquidauana era o grande gargalo de passagem obrigatória para os viajantes nativos que buscavam cruzar as montanhas de arenito.
Pesquisas arqueológicas e levantamentos etnohistóricos apontam os trechos exatos do leito do Peabiru em Aquidauana:
- A Garganta de Piraputanga e Camisão: O ramal da rota vinha de Corguinho e adentrava o município de Aquidauana pelo distrito de Piraputanga e Camisão, acompanhando as fendas naturais formadas pelos paredões avermelhados da Serra de Piraputanga. As gargantas de arenito serviam como abrigo natural contra tempestades e ponto de vigilância de guerreiros indígenas.
- O Vale do Paxixi e a Mirante de Arenito: Os viajantes contornavam o morro do Paxixi, onde registros de arte rupestre nas paredões de rocha marcavam a rota em direção às fontes de água límpida das nascentes locais.
- O Porto Natural do Rio Aquidauana: Na travessia da calha principal do Rio Aquidauana (cujo nome em idioma Terena significa "rio das águas escuras/velozes"), a trilha cruzava os passos rasos na altura do atual centro histórico e da região da Ponte de Pedra, onde artefatos cerâmicos e lâminas de machado de pedra polida foram catalogados por arqueólogos.
- A Conexão com Miranda e o Pantanal: A partir de Aquidauana, o Peabiru seguia em direção a Anastácio e Miranda (antigo território dos índios Guaná e Terena), contornando as vazantes temporárias para manter os viajantes em solo firme durante a estação de cheia do Pantanal.

A verificação do traçado do Peabiru com tecnologias geofísicas modernas trouxe um novo entendimento sobre o desenvolvimento urbano indígena na América do Sul pré-colombiana. As pesquisas recentes mostram a complexidade das estradas nativas.
A tabela abaixo descreve as principais metodologias de pesquisa aplicadas ao mapeamento do Caminho de Peabiru e as conclusões técnicas associadas a cada uma delas:
| Tecnologia de Mapeamento |
Aplicação Arqueológica |
Conclusão Técnica |
Relevância para o Portal |
| Georradar de Penetração (GPR) |
Detecção de pavimentação sob o solo arenoso |
Identificação de leitos de pedra soterrados |
Confirmação física da rota pré-cabralina |
| LiDAR Aerotransportado |
Varredura a laser sob o dossel florestal |
Revelação de contornos e valas de escoamento |
Descoberta de ramais ocultos na Mata Atlântica |
| Datação por Carbono-14 |
Análise de carvão em fogueiras marginais |
Ocupações humanas associadas à rota |
Comprovação de trânsito há mais de 2.000 anos |
| Mapeamento de Etnobotânica |
Distribuição de capim-estribeira exótico |
Alinhamento botânico ao longo do caminho |
Rastreamento biológico de caminhos nativos |
As conexões físicas entre o litoral brasileiro e a cordilheira andina foram descritas logo nos primeiros anos de colonização europeia. O náufrago espanhol Aleixo Garcia, guiado por povos Guarani em 1524, utilizou o Caminho de Peabiru para marchar até os limites orientais do Império Inca. Garcia alcançou a região de Sucre e saqueou depósitos de prata andinos antes de ser morto na viagem de retorno.
As correspondências jesuíticas dos séculos XVI e XVII trazem relatos detalhados de trilhas indígenas conhecidas como "caminho de ida e volta". Esses registros indicam que a estrada mantinha-se funcional graças ao uso regular por diferentes tribos. Hoje, a preservação dessas rotas representa um dos maiores desafios de preservação patrimonial no interior do Brasil.
O mapeamento arqueológico contemporâneo do Caminho de Peabiru no Mato Grosso do Sul, abrangendo os corredores da Serra de Piraputanga, Aquidauana e Corguinho, emprega perfilamento aerotransportado a laser (LiDAR) combinado à análise microscópica de fitólitos de gramíneas manejadas por populações pré-colombianas. As escavações estratigráficas demonstram que as vias de 1,4 metro de largura não constituíam meras picadas sazonais, mas estradas pavimentadas com gramíneas resistentes à erosão tropical que conectavam o litoral atlântico ao altiplano do Império Inca ao longo de quatro mil quilômetros.
A disputa científica e patrimonial em torno dos ramais que cruzam o Pantanal e a bacia do rio Paraguai mobiliza pesquisadores universitários e o IPHAN na catalogação de abrigos rochosos com gravuras rupestres astronômicas e artefatos cerâmicos de contato inter-regional. O reconhecimento formal desses trechos em Aquidauana consolida a compreensão histórica das redes de comércio indígena sul-americanas antes das incursões coloniais de Aleixo Garcia e Cabeza de Vaca no século XVI.
Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) — Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos e Mapeamento dos Ramais do Peabiru.
Universidade Federal do Paraná (UFPR) — Laboratório de Arqueologia, Etnologia e Estudos Etno-históricos: Levantamento Georradar no Vale do Ivaí.
Revista Brasileira de História — Documentos e crônicas coloniais sobre as expedições de Aleixo Garcia e Martim Afonso de Sousa.
IPHAN — Patrimônio Arqueológico e Rotas Pré-Coloniais no Brasil