Em 2006, um molusco foi retirado das águas geladas da Islândia. Quando cientistas contaram os anéis de crescimento de sua concha — como anéis de uma árvore — descobriram que tinha 507 anos. Nascera em 1499, antes de Colombo morrer, antes de Shakespeare nascer, antes da Reforma Protestante.
Infelizmente, mataram o animal ao abri-lo para estudo. Apelidaram-no Ming, em homenagem à dinastia chinesa que governava quando nasceu.
Mas Ming não era exceção. O oceano está repleto de criaturas que vivem séculos — algumas possivelmente para sempre. Aqui está o que sabemos sobre os animais mais longevos da Terra.
Os Campeões de Longevidade
1. Turritopsis dohrnii: A Água-Viva "Imortal"
Expectativa de vida: Teoricamente infinita
Esta pequena água-viva de 4.5mm faz algo que nenhum outro animal conhecido consegue: reverter sua idade.
Quando ferida, doente ou simplesmente velha, a Turritopsis pode retornar ao estágio de pólipo — sua forma juvenil — e recomeçar o ciclo de vida. É como se uma borboleta pudesse voltar a ser lagarta.
Como funciona:
Processo chamado transdifferentiation — células adultas especializadas se reprogramam para se tornarem células de tipos completamente diferentes.
Por que não vivem para sempre:
Na prática, morrem de predação, doenças ou acidentes. A imortalidade biológica não significa invulnerabilidade.
Implicações científicas:
Pesquisadores estudam seus genes para potenciais aplicações em medicina regenerativa humana.
2. Tubarão-da-Groenlândia: O Vertebrado Mais Antigo
Expectativa de vida: 250-500 anos
Em águas geladas do Ártico vive um predador que mal se move — e que pode ter nascido antes do Mayflower chegar à América.
Descoberta revolucionária (2016):
Análise de carbono-14 nos olhos de tubarões-da-Groenlândia capturados revelou que o espécime mais velho tinha aproximadamente 400 anos. A margem de erro era grande (±120 anos), mas mesmo no limite inferior, seria o vertebrado mais longevo conhecido.
Como vivem tanto:
- Temperatura: Águas quase congelantes (1-3°C) desaceleram metabolismo
- Crescimento: Apenas 1cm por ano (atingem maturidade sexual por volta dos 150 anos!)
- Metabolismo: Extremamente lento, conservando energia
Curiosidade sombria:
Muitos tubarões-da-Groenlândia têm vermes parasitas pendurados nos olhos, deixando-os praticamente cegos. Não importa — caçam pelo olfato.
💡 Leia também: Criaturas das Profundezas do Oceano
Cookie, uma cacatua-de-crista-rosa do Brookfield Zoo, morreu em 2016 com 83 anos — o papagaio mais velho documentado em cativeiro.
Por que vivem tanto:
- Cérebros grandes (proteção contra neurodegeneração)
- Metabolismo lento para aves
- Em cativeiro: proteção contra predadores e acesso a cuidados veterinários
Implicação:
Se você compra uma arara jovem, ela provavelmente viverá mais que você. Milhares são abandonadas quando donos morrem ou desistem.
8. Elefante: Memória Que Dura Décadas
Expectativa de vida: 60-70 anos
Elefantes são os mamíferos terrestres mais longevos depois dos humanos.
Lin Wang, um elefante asiático que serviu o exército chinês na Segunda Guerra Mundial, morreu em um zoo de Taiwan em 2003 com 86 anos.
Por que vivem tanto:
- Baixa taxa metabólica para o tamanho
- Estruturas sociais que protegem indivíduos
- Genes similares aos humanos para longevidade
Os Segredos da Longevidade Extrema
Padrões Comuns
Analisando animais longevos, cientistas identificaram fatores recorrentes:
1. Metabolismo lento
Quase todos os campeões de longevidade têm taxa metabólica baixa. Menos queima = menos dano oxidativo = envelhecimento mais lento.
2. Temperatura corporal baixa
Muitos vivem em ambientes frios ou são ectotérmicos (sangue frio).
3. Reparo de DNA superior
Tubarões-da-Groenlândia, baleias e tartarugas têm genes de reparo de DNA excepcionalmente eficientes.
4. Resistência a câncer
Animais grandes deveriam ter mais câncer (mais células), mas desenvolveram defesas proporcionais.
5. Regeneração
Água-viva imortal, axolotes e outros regeneram tecidos danificados.
O Que Humanos Podem Aprender
Pesquisadores estão estudando genes de animais longevos para potenciais aplicações:
- Gene p53 de elefantes (supressor de tumores)
- ERCC1 de baleias (reparo de DNA)
- Transdifferentiation de Turritopsis (reversão celular)
Não significa que viveremos 200 anos em breve — mas pode ajudar a tratar doenças degenerativas.
A Perspectiva do Tempo
O Que o Mundo Era Quando Eles Nasceram
Tubarão-da-Groenlândia de 400 anos (nascido ~1620):
- Peregrinos ainda não tinham chegado à América
- Shakespeare tinha acabado de morrer
- Galileu estava sendo perseguido pela Igreja
Tartaruga Jonathan (nascido 1832):
- Escravidão ainda era legal nos EUA
- Charles Darwin embarcava no Beagle
- Abraham Lincoln tinha 23 anos
Ming, o molusco (nascido 1499):
- Leonardo da Vinci estava vivo
- Michelangelo ainda não pintara a Sistina
- Maquiavel ainda não escrevera O Príncipe
Eles Nos Sobreviverão
A maioria desses animais veria civilizações humanas inteiras nascerem e morrerem se não os perturbássemos. Testemunharam mudanças no planeta que mal conseguimos imaginar.
E alguns, como a água-viva imortal, podem estar nadando nos oceanos desde antes da Era Vitoriana — esperando pacientes enquanto o mundo se transforma ao redor.
Conclusão
A longevidade no reino animal desafia nossas expectativas. Enquanto humanos celebram centenários como exceções, tartarugas de 100 anos são "meia-idade", tubarões de 150 acabaram de atingir maturidade sexual, e moluscos de 500 anos não são impossíveis.
Esses animais contêm em seus genes segredos que cientistas estão apenas começando a decifrar — pistas para envelhecimento, regeneração e resistência a doenças.
E talvez a maior lição seja humildade: enquanto nos orgulhamos de nossa inteligência e tecnologia, um tubarão cego nadando lentamente no Ártico pode ter nascido antes de Newton formular a gravidade — e ainda estará lá muito depois de todos nós termos partido.
Fontes: National Geographic, Science Journal, Marine Biology Research, Proceedings of the Royal Society B. Atualizado em Fevereiro de 2026.


